Uma obra no Salão de Arte Um assunto
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de fevereiro de 2006
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Um assunto
Semana passada, ao destacar o 61º Salão Parananese que está em cartaz no Museu de Arte Contemporânea, em Curitiba nesta coluna, falei, especialmente, do trabalho de Egídio Rossi um artista de Caçapava, SP, que vive e trabalha em São José dos Campos sem me aprofundar mais no caso. Sobre o trabalho exposto, escrevi que ''mais do que uma idéia inteligente colocada em ação, há um embaralhamento de sobreposições e justaposiçoes formais ali que passam da esfera da inteligência para tocar, de fato, os sentidos: no caso, o visual, por excelência''.
Continuação de um raciocínio
Dispostos em uma das salas do museu estão: um armário, tipo biblioteca, de madeira e vidro, fechado, com vários ventiladores dentro, funcionando; um guarda-roupa antigo, de madeira, nele incrustado um arquivo de metal e; um ventilador movendo o assento de um banquinho, que está solto no ar, dependurado por um fio, enquanto suas pernas, serradas, pousam em um suporte de madeira.
No armário de vitrine em que ele prende vários ventiladores usados, de diferentes marcas, de várias cores, girando atrás do vidro, a primeira coisa que acontece ao espectador é uma surpresa capaz de bloquear nossa respiração, por um instante, tal qual o vento preso dentro do armário. Imediatamente, sem que a palavra nos proteja, algo indica que bem ali, diante dos nossos olhos, algo pode ser denominado de ''belo'', ''bonito'', ou ''forte''. Só a partir de então, podemos construir qualquer discurso estético e racional.
O peso do trabalho de Rocci é o do artista com um discurso e uma linguagem que parecem definidas. Aluno do artista Iran do Espírito Santo, é possível perceber a linhagem e o impacto das formas e funções dos objetos se enfrentando, em relações desproporcionais, ou, aparentemente, despropositadas. O guarda-roupa e o arquivo de ferro parecem mais do que brigar por espaço, ou querendo provar um ao outro a possibilidade de dois corpos ocupar o mesmo espaço. Pintado de azul, o arquivo de ferro incrustado dentro do guarda-roupa de madeira antigo, envernizado, nos torna cúmplices de seu crime, aceitando a criação de relações entre as coisas que parecem impossíveis.
Do mesmo modo, ao reter o impulso da matéria como no caso do assento do banquinho preso por um cabo, mas com as pernas serradas, se movimentando pelo vento de um ventilador (onde se lê, Ângela, escrito em tinta esmalte vermelha, toscamente) a composição toda se abre para uma outra dinâmica, e, até para um pensamento que não é nem o da escultura pelo menos o da escultura clássica mas, o da pintura.
Definição de conceito
É nesse ponto que uma das curadoras do evento, Angélica de Morais, acerta em cheio, quando diz que a discussão desse salão é o da ''pintura expandida'', ou seja, a partir de elementos trazidos do campo da pintura, os artistas desde algum tempo passam a usar esses elementos em diversas linguagens, que se ''expandem'' além da linguagem pictórica.
No caso de Rocci, o que está em jogo é o fato de as peças apresentarem um ritmo vibrante e estático, ao mesmo tempo. Possuem um equilíbrio dinâmico, onde a massa e a sua ausência são sempre percebidas entre o material do que são feitas e as questões ali colocadas. Entre a contundência da imagem e a sutileza daquilo que ela nos evoca.
Comparações
Por último, gostaria de relacionar, também, o uso de armários de Rocci com os da artista colombiana Doris Salcedo, que na 24 Bienal Internacional de São Paulo, 1998, mostrou vários armários recheados de concreto, criando uma metáfora onde a desproporção do peso do conteúdo que recheava os armários era maior do que suportaria sua forma de madeira, como se a sua história pessoal estivesse presa ali dentro, enclausurada para sempre. E, também, pensar o trabalho de Rocci em relação ao trabalho de Rachel Whiteread, artista inglesa, que expôs no MAM, em São Paulo, em 2004, que faz uso do ''espaço negativo'' entre os objetos como o interior de um armário ou quarto, nos oferecendo à visão, uma trama onde lógica e absurdo parecem se contradizer a todo instante, na medida em que o que se materializa é o que não se vê.
Ou seja, usando objetos do cotidiano, somos surpreendidos porque não é só um armário que está em uma situação não convencional, mas somos nós que, um passo acima de nossa certeza, demoramos até encontrar a firmeza de nossas convicções, novamente.


