ReproduçãoDecidido a morrer, Baddi (Homayun Ershadi) procura alguém para enterrá-loEntre os muitos serviços prestados pela Mostra Internacional de São Paulo ao cinema, está a revelação de cinematografias desconhecidas do grande público. A iraniana é uma delas. Por iniciativa de Leon Cakoff, nomes como Abbas Kiarostami, Moshen Makhmalbaf e Dariush Mehrjui se tornaram conhecidos por aqui, trazendo por tabela imagens de um país e de uma cultura que aos nossos olhos são referências distantes e, muitas vezes, distorcidas por produções norte-americanas.
Vale a pena lembrar que a cinematografia iraniana tem sido uma das mais promissoras dos últimos anos. Para quem deseja conhecer um pouco mais desse cinema do Sudoeste da Ásia, encontra-se nas locadoras ‘‘Gosto de Cereja’’, dirigido por Abbas Kiarostami e vencedor da Palma de Ouro, no 50º Festival de Cannes, em 1997, onde dividiu o prêmio máximo com a produção japonesa ‘‘Enguia’’. O filme também foi exibido na 21ª Mostra de Cinema de São Paulo, em 1997. É uma obra árida, como os desertos iranianos. Não é uma fita de ação, mas de reflexão sobre a condição humana.
Abbas Kiarostami aborda em ‘‘Gosto de Cereja’’ dois temas que são tabus em seu país: o homossexualismo e o suicídio. Trata-se da história de Baddi, um homem de meia-idade, cuja a intenção é tomar algumas pílulas e se matar. Para isso, ele peregrina por uma região desértica, a procura de uma pessoa que aceite cobrir o buraco em que vai se deitar após tomar uma dose de barbitúricos. Como ele só procura homens, a primeira idéia que o filme passa ao telespectador é de se trata de um homossexual em busca de uma transa. A dúvida é desfeita aos 20 minutos de projeção, quando Baddi, finalmente, explica o motivo de sua procura.
No entanto, em nenhum momento, o cineasta revela ao espectador o motivo pelo qual Baddi quer se matar. Mas fica nas entrelinhas que, na verdade, Baddi quer morrer porque é um homossexual. Com isso, Kiarostami coloca o suicídio como opção, a exemplo do que os surrealistas fizeram nos anos 20, quando realizaram uma enquete que deu muito o que falar: o suicídio é uma solução ou não? ‘‘Gosto de Cereja’’ é um filme seco, sem qualquer concessão. Baddi é um personagem tão neutro que sequer consegue nos comover com sua dor, mas o que nos incomoda são seus pensamentos e sua indiferença com relação à vida.
Abbas Kiarostami nos coloca diante de uma dúvida cruel: aceitamos a vida como um valor em si ou devemos encontrar um sentido para que ela se justifique? No fundo, ‘‘Gosto de Cereja’’ é um filme sobre a morte feito para celebrar a vida. Se a riqueza de um filme pode ser medida pela fecundidade do tema, ‘‘Gosto de Cereja’’ tem momentos de obra-prima. Lançamento da Cult Filmes. Duração: 91 minutos. (C.M.)

mockup