Uma obra cheia de curiosidades
Com certeza pouca gente se lembra da dupla Rosalinda e Florisbela, que estreou na Rádio Difusora de São Paulo, em 1939. No entanto, uma das irmãs que compunha a dupla era nada mais, nada menos do que Hebe Camargo, hoje uma estrela do meio urbano. Essa é uma das muitas curiosidades que Renê Faria Filho revela em seu livro ''Memórias Sertanejas'', aproveitando também para contar como tudo começou. De acordo com Renê, a música deve ter surgido cerca de 2 mil anos antes de Cristo, entre os chineses ou hindus. Contudo, teriam sido os egípcios os responsáveis por sua popularização, difundindo-a no meio rural, a partir de cerimônias em que rogavam aos deuses por boas safras. ''Como o campo veio antes das cidades'', argumenta o autor, não destituído de certa lógica, ''o natural é que a música rural seja a origem da música propriamente dita''.
No Brasil, a música ''caipira'' teria resultado da mistura de manifestações musicais de povos diversos, como as cantigas e os desafios dos portugueses e o cateretê dos índios que, sob a influência dos africanos, acabou ficando conhecido como catira. Esse país de muitas raças chegou, então, ''ao final do século XX mais urbano do que rural, sem, entretanto, perder seu jeito ''caipira'' de ser''.
Deve-se ao jornalista e escritor Cornélio Pires (1884-1958) a valorização das raízes brasileiras, com suas modinhas, anedotas e ''causos''. Os primeiros discos sertanejos também só viriam a público por sua iniciativa, no fim da década de 30. Foi o começo de uma moda, que se firmaria apenas nos anos 60, com o apoio do rádio, do circo, do teatro e do cinema, ''importantes meios de difusão da arte popular caipira'', como diz Renê. Por isso, ''Memórias Sertanejas'' não deixa de citar Mazzaropi, falecido em 1981, que imortalizou nas telas o personagem ''Jeca Tatu'' - criação de Monteiro Lobato -, o típico brasileiro do interior, capaz de ser ingênuo e esperto ao mesmo tempo.
Mas as duplas famosas - Alvarenga & Ranchinho, Tião Carreiro & Pardinho - são destaque nessa história cheia de curiosidades, na qual aquela formada por Tonico & Tinoco merece especial atenção, já que fez sucesso por mais de 50 anos, tendo gravado, ao longo desse produtivo período, cerca de mil músicas. Outra dupla longeva foi a de Nhô Belarmino e sua esposa, Nhá Gabriela, que contabilizou 44 anos de união civil e musical. Já o cantor, compositor e radialista Jeca Mineiro chegou a ser conhecido até no exterior, por conta do sucesso ''Fuscão Preto'', com mais de 50 regravações, inclusive em inglês e italiano... Agora, ''pra campiá'' mais informações curiosas como essas, só mesmo abrindo a ''cancela'' do ''Memórias Sertanejas'', para levar ''dois dedos de prosa'' com o autor, ao som de uma dolente moda de viola.(A.S.)





