Uma obra aberta para o mundo
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sábado, 16 de abril de 2016
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 
Sempre discreto e intimista, Haruo foi um dedicado filho, um irmão amigo, um marido apaixonado, um pai exemplar, um avô e bisavô carinhoso. Na família tudo girava em torno de sua figura e sua presença. Ele não fez do ato fotográfico seu objetivo maior na vida, mas foi através da imagem sensibilizada em prata que ele se expressou plenamente e deixou sua herança, compreendida e preservada pelos seus filhos. Em suas fotografias ele resguardou a natureza das flores, das frutas, do café, da cidade, das formas das luzes e sombras, a virtude dos seres humanos", recordou o fotógrafo Saulo Haruo Ohara, neto de Haruo Ohara, em seu discurso na cerimônia de abertura da mostra "Haruo Ohara: Fotografias", na província de Kochi, no Japão.
O retorno de Haruo à sua cidade natal quase um século depois deve-se, em grande parte, à decisão da família em tornar público o que o artista produziu durante toda a vida. Foi somente em 1998 que as pessoas puderam ter contato, pela primeira vez, com as obras de Haruo Ohara, numa exposição durante o Festival Internacional de Londrina (Filo). Na ocasião, o fotógrafo já estava em idade avançada e saúde debilitada, vindo a falecer no ano seguinte. "A família, compreendendo a importância do acervo, começou a tentar organizar e preservar as obras e história de Haruo. Até então, não tínhamos ideia real e exata da importância dele no cenário nacional e internacional", diz Saulo, que herdou o nome e ofício do avô.
Depois de dez anos cuidando do acervo com muito dedicação, Saulo e família decidiram repassar todo o acervo ao conceituado Instituto Moreira Salles (IMS). "Essa decisão não foi simples, pois a obra de Haruo é extremamente íntima e familiar. Doar seria abrir mão das histórias de cada um, mas houve uma compreensão e generosidade dos filhos; o fim era muito mais importante do que o apego sentimental. E ato de doar, sem retorno financeiro, foi uma conclusão unânime em respeito aos princípios transmitidos pelo pai, que nunca quis fazer dinheiro com suas fotografias", relata. A decisão não poderia ter sido mais acertada, pois Haruo se abria para o mundo e o mundo se abria para Haruo.
Com a doação, vida e obra de Haruo conquistaram "além de uma sobrevida, a possibilidade real de perdurar e se eternizar, seja em condições primordiais de estrutura física, mas, também, de divulgação, montagem de exposições, parcerias com outras instituições, de publicações, também sendo aberta à pesquisa e estudos, o que é essencial", avalia o neto. "Dizem que Haruo somente voltaria ao Japão se acompanhado de Kô. Ela se foi muito cedo e ele se manteve junto a ela. (...) Hoje, o jovem emigrante volta ao seu lar como artista. E se sua promessa era a de retornar ao Japão com sua esposa, ele cumpre sua palavra regressando não apenas na presença de Kô, mas trazendo consigo tudo o que construíram e amaram juntos."
Para Saulo, o trabalho do avô vai além de meramente registrar a imigração japonesa e a história de Londrina e do café. "Também há um diálogo não somente com os japoneses, mas também com outras nações que também trabalharam na lavoura com suas famílias. Haruo foi um lavrador, como meio de sustento, e um amador na fotografia; encontrou na ferramenta, que é a máquina fotográfica e no objeto fotografia, a maneira de exprimir suas ideias e vê-las concretizadas."
Como fotógrafo, Saulo Ohara diz que há, na obra de Haruo, um diálogo com todos os públicos "através de uma simplicidade extremamente difícil de se atingir, uma alegria que transborda, a valorização da natureza e dos seres humanos, somadas a uma sinceridade autêntica". E, agora, depois de dezoito anos de contato com a obra de Haruo - dez anos diretamente e oito colaborando com o IMS Saulo garante que a exposição no Japão de Haruo e sua volta à terra natal é o momento maior em sua trajetória. "Se para ele é uma volta, para mim, é uma descoberta e um reencontro com minhas origens, que me ajudam na compreensão daquilo que sou e certamente vai influenciar nas minhas decisões e na forma de pensar a partir desse momento", frisa.


