Curitiba A Fundação Cultural de Curitiba ainda procura uma data apropriada para inaugurar oficialmente o painel do artista plástico Sérgio Ferro, já instalado no Memorial da Cidade. A obra, oficialmente orçada em R$ 1 milhão, ainda está recebendo recursos públicos. Ao contrário do usual preparo do terreno para o plantio, nessa situação foi diferente. Primeiro o painel em comemoração aos 500 anos do Descobrimento do Brasil foi plantado, no mês passado. Agora a prefeitura deve utilizar um resquício da verba federal de cerca de R$ 200 mil para tornar o local adequado para a sua instalação e tentar protegê-lo das intempéries do tempo.
Enquanto isso, a obra de gosto duvidoso e orçamento milionário, está sujeita a corrosão que o sol, a chuva, a poluição e os pombos provocam. Problemas que a prefeitura pretende resolver até o final do ano. Segundo o supervisor de planejamento do Instituto de Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), Ricardo Bindo, a prefeitura já conseguiu com o governo federal, a prorrogação do prazo para utilização da verba restante, que expiraria em agosto.
Essa verba, prevista no orçamento inicial para ser aplicada em ''medidas de proteção da obra'' vai ser, na verdade, aplicada em melhorias do Memorial, que se estende por consequência e entendimento da prefeitura, à proteção do mural. Bindo explica que será feita uma revisão da cobertura, para conter os pombos e a poluição. Um mecanismo de proteção do sol, principal inimigo das cores e textura original de uma obra de arte, também está sendo planejado, mas o projeto a ser utilizado ainda não foi aprovado. Agora ou a prefeitura realiza essas medidas ou terá que devolver o dinheiro, mas Bindo garante que as reformas devem começar logo para que o dinheiro não retorne aos cofres públicos.
A mesma quantia pendente já foi utilizada para a instalação do painel, que consistiu na colagem e preparação da parede para receber o mural de 300 metros quadrados. Se R$ 200 mil foram utilizados para esse fim e ainda restam a mesma quantia para ser aplicado em medidas para proteger a obra de arte, calcula-se que o projeto tenha custado bem mais do que o R$ 1 milhão anunciado.
Mas para o candidato a deputado estadual Rafael Greca (PFL), que encomendou à obra enquanto integrava a Comissão Nacional para a Comemoração dos 500 anos do Brasil e era ministro do Esporte e Turismo, há dois anos, o orçamento é ''modesto, como quase todos os orçamentos do Estado''. ''O painel do Sérgio Ferro foi um presente da comissão para o Paraná'', afirma Greca. Ele lembra que a mesma comissão tinha uma verba de R$ 40 milhões para aplicar em atividades que marcassem a data. ''Poderíamos gastar essa verba em fogos de artifício, poderíamos promover um único show, mas nossa intenção não era fazer um comício, mas um processo cultural'', justifica o candidato.
Ele compara a verba consumida a efêmeros espetáculos de música. ''Há shows que custam R$ 20 milhões, mas são como comícios. Nossa intenção era fazer uma obra de durabilidade'', afirma Greca. Não há no Brasil um artista que custe tanto. O maior custo de shows na história brasileira foi a turnê da banda irlandesa U2 , que em três apresentações em Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, consumiu US$ 12 milhões.
Mas para Greca, não ''há preço que pague uma obra como o painel de Ferro''. Ele lembra que além do peculiar mural, que conta, na visão do artista, a história do Brasil, a verba total da comissão foi utilizada em obras como a restauração do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, projeto que consumiu R$ 10 milhões; em reformas no Parque Ibirapuera em São Paulo e ainda em obras comemorativas instaladas em Recife e Porto Seguro. ''Como integrante da comissão, eu fiz o que devia incluindo minha cidade na lista das que receberam homenagens'', complementa Greca.
Quanto à escolha, sem concorrência, do artista curitibano radicado na França há mais de 30 anos, para assinar o mural, Greca tem a justificativa na ponta língua: ''ele era o único muralista vivo curitibano de expressão internacional''.
Mas os artistas locais recebem com ressalva essa premissa. ''Não houve concorrência nem transparência. Prevaleceu o gosto de uma única pessoa'', salienta o artista plástico Edilson Viriato. Ele diz não questionar a obra de Ferro, mas ressalta que ''faltou pesquisa''. O Brasil não é só samba, o mural parece um samba carioca no pinheiro paranaense'', brinca Viriato numa referência à principal imagem do mural. Para o artista, uma verba semelhante a que foi aplicada merecia mais cuidado e participação das pessoas. ''Além disso, deveria ter sido feito num material de maior durabilidade'', avalia.

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