Uma novela com todos os clichês que se prezam - amnésia, ascenção social, fuga, paixões impossíveis e amores desfeitos - está sendo escrita em Curitiba em meio à solidão e silêncio pela roteirista Karmel Meir.
A moça, que tem em seu currículo roteiros nas áreas de publicidade, cinema e documentário (o último foi para o Parque Nacional do Xingu, numa parceria da UNB com a Funai), acalenta um sonho: ver um dia seu trabalho na tela da TV Globo. É a única emissora no País que fez do folhetim eletrônico um grande negócio, argumenta Karmel.
A escritora produziu até agora 80 capítulos, ou seja, a metade do exigido numa novela. Cada capítulo foi cronometrado entre 40 e 47 minutos, com todos os breaks necessários para a inclusão de propaganda. Esse detalhe é importantíssimo: ‘‘Aqui é onde entra o dinheiro’’, diz.
As primeiras cenas são locadas em Brasília. Raquel, a personagem principal, circula desenvolta pelos ambientes finos da corte, mas não é feliz. Seu marido, um chinês, tem uma vida misteriosa. Tudo ali transpira a segredos, incertezas.
Sem ter como situar-se nesse mundo de interesses e fachadas, Raquel acaba por tomar uma decisão drástica - sentindo-se asfixiada, arruma a mala e foge de casa, deixando tudo para trás. Vítima de um acidente, a moça esquece do seu passado, quem ela é e assim, desmemoriada, recomeça tudo de novo, trabalhando numa fábrica de perfumes. É quando surge um novo amor em sua vida.
A novela transita dentro dos moldes dos dramalhões concebidos por Janete Clair, segundo Karmel. Ou seja, o personagem que deixa a obscuridade para ingressar numa vida grandiosa; as mudanças extremadas que marcam as existências. Aqui, por exemplo, há o embate da mulher consigo mesma, vítima de seu próprio mistério e que aos poucos é alcançada por elementos do passado, que começam a misturar com a nova realidade.
Esquecimentos e vidas duplas renderam quilômetros de textos graças à imaginação de Janete Clair. Em ‘‘Irmãos coragem’’ havia o problema de dupla personalidade de Lara, vivida por Glória Menezes. Em ‘‘Selva de Pedra’’ Regina Duarte dava o troco numa desilusão amorosa, voltando linda, famosa e rica - e enfiada noutra identidade.
Esse surrealismo, pelo jeito, é o que empolga Karmel Meir. Mas não estaria gasto esse tipo de escapismo da realidade, em que todo pobre fica rico no mundo novelístico? A candidata à discípula de Janete Clair não vê as coisas por esse ângulo. Não importa o enredo, a arte está em como se contar a história e prender o telespectador.
Sua novela, argumenta, tem uma gama de climas e situações, que vai do drama à comédia. Tem um núcleo de personagens latino-americanos, ‘‘que é um gancho legal para o Mercosul’’, segundo a moça. A trama toda se passa em Curitiba, depois da fuga da heroína da capital federal.
Qualquer semelhança com a vida da autora nada tem de coincidência. Ela viveu em Brasília, está em Curitiba, e afirma com todas as tintas que qualquer obra ficcional tem lances que remetem diretamente à realidade do autor. ‘‘Acho muito difícil um autor ter uma obra que não seja um pouco autobiográfica’’.
O lado Cinderela de Raquel (já que toda heroína está fadada a viver um conto de fadas) seria uma aspiração de sua criadora? ‘‘Não’’, responde Karmel. Também não se adapta à jovem esquecida o figurino de Cinderela no sentido clássico do termo. Poderia ser usado noutro tipo de visão, o da pessoa que se descobre capaz, depois de passar pelas lambadas da vida.
Quando era criança Karmel tinha que ir dormir antes de começar as grandes novelas da TV Globo. Elas começavam às 10 da noite. A menina esgueirava-se pelo corredor e assistia pela fresta da porta. ‘‘Os Ossos do Barão’’, ‘‘Bandeira Dois’’, ‘‘O Bofe’’, ‘‘Gabriela’’ foram vistas assim, às escondidas.
‘‘Acho que comecei a me interessar pela estrutura de uma novela a partir de ‘Escrava Isaura’. Aquilo me marcou muito, e acho que durante uns dez anos não perdi nenhuma das 6 e das 8 horas’’. Na extinta Tupi viu o que pôde, entre elas ‘‘O Direito de Nascer’’, ‘‘Mulheres de Areia’’, ‘‘O Profeta’’, para citar alguns.
Com todo esse passado, a autora não consegue engolir os remakes. ‘‘Os remakes são uma busca do autor antigo. Não temos mais grandes novelas’’, lamenta. Tentar ressuscitar megasucessos não resulta em muita coisa. ‘‘Deu para ver isso em ‘Selva de Pedra’. A primeira versão não tem nada a ver com a segunda. Perdeu muito do encanto e da dramaturgia’’, explica.
A televisão do passado tinha um compromisso maior com a arte. Hoje ela está muito mais preocupada com o merchandising. A citação de produtos, que deixou de ser uma propaganda velada para se escancarar aos olhos e ouvidos do espectador.
‘‘O merchandising ocupa cenas muito longas, espaços muito longos. Na minha história isso já não acontece, porque ele está embutido no enredo, de forma sutil’’, afirma. Outra crítica: a interferência da opinião pública na condução da obra.
‘‘Muitas vezes uma novela está indo no caminho certo, mas por causa da revista ‘Amiga’, da ‘Contigo’ e suas leitorinhas, mudam-se os destinos dos personagens. Isso não acontecia na época da Janete Clair’’, diz saudosa.Marcelo AlmeidaKarmel Meir tem 80 capítulos prontos com previsão de breaks para a inclusão de propaganda:‘‘aqui é que entra o dinheiro’’ - dizZeca Corrêa Leite

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