Uma nova visão sobre Drummond
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quarta-feira, 18 de setembro de 2002
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado. 
Ao longo dos anos, o ensaísta e professor aposentado da USP Davi Arrigucci Jr. dedicou estudos à poesia de Manuel Bandeira, de quem sempre foi leitor atento. O resultado foi publicado como ''Humildade, Paixão e Morte'' (1990), livro saudado pela análise arguta. Debruçou-se também sobre a obra de Murilo Mendes, cuja obra é um horizonte de desafios, e o ensaio figura como um dos textos de ''O Cacto e as Ruínas'' (1997). ''Mas, durante todo esse tempo, nunca deixei de reler os poemas de Carlos Drummond de Andrade, de quem sempre falei em minhas aulas e palestras'', conta o ensaísta que, intrigado pela sua poesia reflexiva, estudou a obra do escritor mineiro. Depois de dez meses de trabalho, ele agora oferece ''Coração Partido'' (''Cosac & Naify'', 160 páginas).
Como já fizera em seu livro sobre Bandeira, marco da fortuna crítica do poeta, Arrigucci parte da análise atenta de poemas significativos para buscar um conflito na poesia de Drummond que pouco ou nenhuma vez foi apresentado: o lirismo formado por drama e pensamento. ''Busquei uma análise estilística, passando por grande parte das tendências culturais do século passado'', comenta. ''Com isso, penso ter chegado à fisionomia central do poeta, à diferenciação de um modo de ser.''
Analisando desde o ''Poema de Sete Faces'' até ''Mineração do Outro'', o que cobre um importante período da obra de Drummond que vai de ''Alguma Poesia'' (1930) a ''Lição de Coisas'' (1962), Arrigucci aponta primeiro a unidade de sua poesia, mesmo que ela seja classificada algumas vezes em divisões por vezes rígidas, como o humor modernista da fase inicial e a poesia dita filosófica dos anos 40.
''O ensaio procura compreender o modo como o poeta exterioriza, através da lírica meditativa, seu 'sentimento de mundo'. É uma tentativa de interpretar um percurso difícil: como consegue, por seu trabalho de arte fundado na reflexão, dar forma orgânica aos fatos, problemas e valores que lhe marcaram a experiência no contato com o mundo. Trata sobretudo do humor, do amor, do trabalho, enredados na mesma teia de problemas, resumida no fim'', escreve Arrigucci, na introdução do livro.
Drummond, cujo centenário de nascimento será comemorado no dia 31 de outubro, viveu em diversas cidades, umas maiores que as outras: primeiro em Itabira, onde nasceu, depois Belo Horizonte e Rio de Janeiro. ''Houve assim um espaçamento na experiência, pois a cidade grande muda muito a perspectiva da província'', observa. ''O choque nasce, portanto, do impacto que o 'grande mundo' provocou na alma de um homem nascido em uma pequena cidade.''
Assim, o ''Poema de Sete Faces'' (''Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida'') expõe o contato com um mundo caótico e múltiplo. ''Isso caracteriza seu esforço poético'', comenta o ensaísta, que vê nessa fase modernista uma ambiguidade de tom que supõe um ''Eu reflexivo atrás do Eu''.
Nessa primeira fase, Drummond seguia a linha modernista ao criar poemas que provocam tanto riso como seriedade. Mas, apesar dessa verve que se aproveitava da linguagem oral extraída da fala cotidiana, o poeta não escondia o ''Eu retorcido''. ''Era o sofrimento beirando o desespero, o desajeitamento do indíviduo'', afirma Arrigucci.
O ensaísta, que se prepara para escrever sobre Ferreira Gullar, gosta de apontar uma forma de ironia utilizada por Drummond, o chiste, pelo qual o poeta exercita o humor como um tipo de piada agressiva. Trata-se de uma artimanha que lhe permite unir elementos divergentes e contrastantes ou, em outras palavras, sentimento e reflexão.
É nesse ponto que Arrigucci aponta uma das diferenças entre a poesia de Bandeira e Drummond. Poeta cuja fase inicial passou pelo simbolismo até chegar ao modernismo, Manuel Bandeira inaugurou na literatura brasileira a forma da poesia moderna, em que estilo simples encobre o complexo e sugere a mais pura espontaneidade. ''Já a obra poética de Drummond sugere o contrário, ou seja, uma obra que revela o trabalho do autor, o que é medido pela forma e pela reflexão.''
Segundo ele, a diferença que separa os dois grandes poetas é mais importante do que parece à primeira vista, pois se liga ao modo de ser mais íntimo de cada um. ''E não se reduz exatamente a uma oposição de contrários'', afirma Arrigucci, lembrando a complexidade que marca a poesia drummondiana e a naturalidade bandeiriana.
A dificuldade de Drummond em criar sua poesia reflexiva é apontada em ''No Meio do Caminho'' (''No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra/ no meio do caminho tinha uma pedra). Com isso, ele baixava o poético das alturas tradicionais para o plano da experiência cotidiana, quebrando a mesmice com um golpe de surpresa. Arrigucci percebe que o movimento reflexivo gira sem saída no círculo das repetições infindáveis, uma referência à mesma dificuldade que enfrenta a construção poética.
Na terceira e última parte de ''Coração Partido'', o ensaísta utiliza o poema ''Mineração do Outro'' (''Os cabelos ocultam a verdade/ Como saber, como gerir um corpo alheio?/ Os dias consumidos em sua lavra/ significam o mesmo que estar morto'') para tratar dos mistérios do amor. ''Trata-se de um sentimento muito caro a Drummond e, nesse caso, ele foca a crise amorosa, ou seja, como entender o outro na relação amorosa.''
Uma forma de conhecimento, tanto interno como externo: o coração vincula-se ao pensamento e o amor desencadeia um esforço e busca conhecimento, desembocando na poesia reflexiva. ''E a sintaxe, que é o modo de externar o pensamento, se revela sublime.''
Arrigucci entrega-se agora a um projeto antigo, buscando o ponto que une os escritores João Guimarães Rosa e Jorge Luis Borges e o cineasta John Ford. O livro, que vai se chamar Sertão Oeste Pampa e deverá ficar pronto até a metade do próximo ano, pretende estudar a experiência histórica nos espaços vazios. ''É uma análise do processo de modernização de regiões atrasadas'', explica.


