Uma noite para Nelson Pereira dos Santos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 12 de agosto de 1998
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
Se as previsões da meteorologia partissem esta semana de Gramado, a margem de acerto seria mínima. Calor, chuva (grossa ou miúda), umidade, frio, sol, neblina intransponível, nuvens negras, céu azul: são muitas as variantes, e num só dia. Mas nem as já conhecidas trapaças de El Ni¤o impediram que o Palácio dos Festivais recebesse terça à noite seu maior e mais fiel público. No palco, familiares, colaboradores e amigos; na platéia, antigos e novos admiradores. No centro das atenções, Nelson Pereira dos Santos, o mais importante cineasta do País em todos os tempos. Aos 70 anos, sereno como sempre e esbanjando jovialidade, o cineasta de clássicos decisivos na história do cinema brasileiro (Rio 40 Graus, Vidas Secas, Memórias do Cárcere), não pára. Dois projetos ambiciosos devem ser entregues brevemente ao público: para o canal pago GNT, a adaptação de Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, em três capítulos, e um filme sobre Castro Alves.
Nenhum título que se possa destacar especialmente, na mostra competitiva de longas- metragens. A Argentina trouxe seu segundo longa, Pizza, Birra, Faso, dirigido pela dupla Bruno Stagnaro e Israel Caetano. Na trilha aberta no início dos anos 80 por Pixote, de Hector Babenco, o filme é o retrato cruel e sem retoques do dia-a-dia de adolescentes marginais vivendo nos grandes centros urbanos - no caso, Buenos Aires. Não há maiores novidades por trás das imagens em 16 milímetros captadas por uma câmera nervosa. Um quarteto de delinquentes tenta sobreviver praticando assaltos, mas as chances são obviamente remotas. Atores amadores, locações de rua, enfoque semidocumental. Nada que Kids, ou Slam ou O Ódio, na mesma vertente, não tivessem abordado antes com mais originalidade.
Outra denúncia sem impacto é Las Voz del Corazón, da Venezuela, dirigido por Carlos Oteyza. Um homem tenta descobrir e documentar o que há por trás da desenfreada exploração de madeira na Amazônia venezuelana. E ao mesmo tempo avalia seu passado afetivo. O encontro com uma mulher que apresenta numa rádio o programa comunitário La Voz de Corazón vai acabar mudando o rumo dos acontecimentos. A indiscutível fotogenia das locações exteriores não basta para dar personalidade ao filme ou embasar a bandeira social levantada pelo roteiro.
Depois de trazer muita e boa sonoridade ao Festival de Gramado do ano passado com o docu
mentário Yo Soy del Son a la Salsa, uma súmula musical dos sons e do ritmo caribenhos, o cinema cubano volta ao tema este ano e apresenta Zafíros - Locura Azul. Baseado na trajetória de um dos grupos vocais de maior prestígio nascido em Cuba nos anos 60, o filme trata convencionalmente os altos e baixos profissionais e pessoais que determinaram a ascensão, glória e decadência do quarteto Los Zafíros, uma espécie de The Patters surgido na ilha num momento de muita exuberância musical.
Além da saborosa trilha sonora, com registros originais remasterizados dos grandes hits dos Zafíros, o que também vale destacar na produção é que se trata da primeira parceria cinematográfica entre Cuba e Estados Unidos, uma ponte valiosa que se abre afinal entre os dois países, como destacou o diretor Manuel Herrera, antes da projeção.


