‘‘A Múmia - A Tumba do Imperador Dragão’’, que estréia hoje em Londrina, (veja a programação de cinema na página 2) chega atrasada como entretenimento de julho da criançada ociosa. Mas como as multinacionais não dormem em serviço, eis que surgem no horizonte do marketing...as Olimpíadas !
  A um custo de 175 milhões de dólares, a insistente pergunta durante as filmagens realizadas no segundo semestre de 2007 era sempre: por que um orçamento tão elevado para um parque temático que parecia exaurido ao final do segundo segmento da série. O assunto, claro, tem a ver com as Olimpíadas, que não por coincidência começam na próxima sexta-feira. Os chineses, anfitriões dos jogos, investiram tanto dinheiro na distribuição do filme no circuito interno que podem ser considerados quase co-produtores. A equação é simples: a China projeta uma imagem poderosa de sua indústria e ao mesmo tempo a Universal Pictures nada de braçada - modalidade em que Hollywood é soberana no podium...
  Nesta terceira parte da franquia a Universal se despediu do Egito dos faraós e abriu sucursal na China. Como reforço no traslado, a presença dos super-astros asiáticos Jet Li e Michelle Yeoh para contrabalançar a perda de Rachel Weiz (uma ótima heroína de ação), substituída por Maria Bello (ótima atriz mas uma desanimada heroína de ação).
  Apostando na quantidade, na acumulação e no espetacular que mal cabe na tela, ‘‘A Múmia - A Tumba do Imperador Dragão’’ transborda de debilidades estruturais. Mas apesar disso, a montanha russa inverte a máxima, e por momentos chega a convencer que tamanho é documento. Nas mãos do diretor Rob Cohen, a coisa flui até que bem engrenadinha, e corre rápido o suficiente para resultar algo desfrutável como passatempo.
  No século II a.C, e logo após construir a Grande Muralha, o inescrupuloso imperador Han (Jet Li) primeiro manipula, e em seguida assassina seu chefe militar, o general Ming, e a namorada deste, a feiticeira Zi Yuan. Antes de morrer, ela transforma em argila o imperador e seu exército, condenados à imobilidade eterna. Quer dizer, nem tão eterna assim...
  Han e seus dez mil soldados voltam à vida. Como a feiticeira tinha preparado a própria volta e a de Ming, a trama termina com mais mortos-vivos em ação do que toda a galeria de zumbis que já desfilaram na tela. A premissa do roteiro, como alguns já concluíram, se inspira na crônica dos famosos guerreiros de terracota do imperador Qin Shi Huang, esculpidos por volta de 210 a.C. e cujas réplicas fazem a alegria de arquitetos, decoradores e socialites que visitam a China.
  O diretor Cohen trata os personagens como objetos de contra-regra, como se todos fossem mesmo de argila. E é como argila que eles lutam as artes marciais e seu repertório de acrobacias, espadachins e coreografias voadoras. Envolvido pela vertigem, o público aceita. Pouco importa que o roteiro se aproprie de personagens e acontecimentos históricos. A viagem aos confins da imaginação traz velhas lendas e mitos. Já que o terço final do filme se passa no Himalaia, é natural que o reino perdido de Shangri-Lá compareça. Ou muito normal que o Abominável Homem das Neves, o outrora mais popular Yeti, dê as caras.
  Confirmando que o atual filão de aventuras parte do núcleo familiar, o filho do herói Rick O’Connell, de novo vivido com aquela simpatia oca e abobalhada por Brendan Fraser, comparece já bem crescidinho, aumentando a impressão de que o pessoal da produção deu uma passadinha antes no set do Indiana. Mas o muito precário ator escolhido não chega aos pés de Shia La Boeuf.
  Rebaixado qualquer nível de exigência, resta contentar-se com esta multicolorida e multi-absurda viagem no tempo, que ao final da projeção será desmaterializada com tanta velocidade que cairá como os pedaços do imperador Han.

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