A australiana Robyn Davidson é uma mulher pouco convencional. Amante dos desafios solitários, sua grande paixão é percorrer desertos das mais variadas partes do mundo apenas na companhia de camelos e cachorros.
Em ‘‘Lugares Desertos’’, lançado pela Editora Companhia das Letras, Robyn Davidson narra sua dolorosa caminhada ao percorrer a região do deserto de Thar, na Índia, na companhia dos últimos povos nômades daquele país, os rabaris.
Os rabaris construíram uma cultura específica dentro da Índia atravessaram os séculos pastoreando camelos e carneiros. Nos últimos tempos, pressionados pelo sistemático aumento de grandes fazendas, da monocultura, desertificação e superpopulação do país, entraram praticamente em extinção cultural. Sem moradia fixa, viviam em sistemas comunitários, tirando o sustento na venda de lã para a fabricação de tapetes. Durante as longas imigrações, possuíam como principal fonte de renda a venda do esterco dos carneiros. Cada chefe do clã (dang) negociava com os fazendeiros o local onde poderiam armar acampamento para que ao carneiros pastassem comendo o restolho e simultaneamente, através do esterco, adubavam o solo.
Em ‘‘Lugares Desertos’’ Robyn Davidson mostra sua dificuldade em localizar as últimas comunidades que ainda preservavam tal cultura. Dificuldade maior foi convencê-los a deixar acompanhá-los nas longas imigrações. O fato de ser mulher aumentava os problemas. Mas o grande problema estava na língua, na maneira de entrar e viver na milenar cultura indiana.
A autora pinta um retrato sentimental do interior da Índia. Um retrato, ao mesmo tempo belo e feio, triste e alegre, doloroso e espiritual, injusto e sábio.Uma Índia em que não há nenhum pedaço de terra que não seja utilizada pelo homem, arada, posta em potes, comida, defecada, dispersa em poeira, novamente arada, comida, defecada, dispersa em poeira, novamente arada...
O primeiro desafio de Robyn Davidson, em sua caminha, foi aceitar o sistema de castas da cultura indiana: ‘‘Não podia me acostumar com a idéia de que havia classes de pessoas inferiores, que podiam ser tratadas com odiosa condescendência ou com a mais crua brutalidade, conforme se preferisse, e no entanto conviver com elas tão intimamente quanto numa família.
Com sensibilidade e desprendimento da alma feminina, Robyn regista em sua narrativa todos seus estados de espírito, que atravessaram tanto o desespero mais profundo, até o amor mais oculto. Fica claro que enfrentou uma aventura pautada por um doloroso incômodo físico e mental: ‘‘Tudo me enfurecia. A curiosidade e o tumulto, os corpos esqueléticos e os olhos arregalados, os mendigos inconvenientes e lamuriosos, minha própria indignação contida diante de tanto sofrimento ‘desnecessário’, tanta insensibilidade, tanta indiferença disfarçada de refinamento espiritual.’’
Se este desconforto associado ao conflito cultural permeia o livro, a autora possui a capacidade de destilar as dores e vislumbrar a beleza. Sentimentos nobres que se tornam irreconhecíveis atrás do manto da cultura: ‘‘Naquela noite entrei em um novo estado de aceitação. Não aumentaria minhas dificuldades protestando contra elas, por isso somente levava ao fracasso e à perda de energia. Não podia interferir nos acontecimentos externos: tudo que eu podia modificar era minha própria relação a eles. Naquela noite, um pouco de hinduísmo penetrou em minha alma.’’
‘‘Lugares Desertos’’ contém, elementos antropológicos que podem nos ensinar algumas lições sobre os desastres causados pela selvagem competição dos tempos atuais. Para os nômades rabiris, o ganho local, pessoal, de curto prazo, é sacrificado em benefício da comunidade, sem necessidade de punição para quem violar as regras. De acordo com Robyn Davidson, as culturas dos desertos raramente possuem palavras para designar agradecimento ao ganhar alguma coisa. Não há ‘‘muito obrigado’’ porque a partilha é essencial à sobrevivência e às forma sociais. A divisão das coisas está intrínseca em cada gesto, em cada pensamento, em cada objeto, em cada propriedade.
A luta pela sobrevivência ocupa todo o tempo dos rabiris. Até mesmo no momento de admitir que sua cultura está em processo de extinção, assume uma posição pautada pelo presente. Isso está latente nas palavras de Phagu, o chefe do clã: ‘‘As pessoas dizem que não há futuro em minha ocupação e que deveria vender meus rebanhos. Mas como posso me preocupar com isso agora? Invernar os carneiros toma todo o meu tempo, esforço e concentração. Estou preocupado demais com a sobrevivência para responder perguntas profundas.’’
Em suas considerações finais, Robyn Davidson deixa registrado seu maior dilema, como compreender - e viver - uma cultura sem fazer parte dela: ‘‘Durante muito tempo, fiquei sem saber como escrever sobre minhas experiências. Havia apenas uma série de acontecimentos desconexos, sem forma e sem sentido. Eu passara pela Índia como uma faca passa pelo gelo e ela se fechara atrás de mim a cada passo. Como se faz para escrever sobre o fracasso?’’
O maior desafio é conseguir ver e entender as cores que cobrem a dignidade humana: ‘‘De onde eu vinha, a vida não era difícil nem perigosa o bastante para exigir grandeza das pessoas. Ali a grandeza ainda era possível.’’
• Lugares Desertos - de Robyn Davidson, Editora Companhia das Letras, tradução de S. Duarte, 290 páginas, R$ 29,50/Livraria Rosa do Povo (fone: 043/321-5691).

mockup