Uma mulher de palavras
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de março de 2003
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
A jornalista, escritora, tradutora e artista plástica Marina Colasanti esteve ontem em Londrina para participar da 11 Semana Municipal da Mulher, realizando uma palestra no Catuaí Shopping sobre o tema ''Mulher, entre a imagem e a realidade''. Ela abordou as formas de representação da mulher na mídia, fazendo uma crítica e uma análise da pertinência dessa imagem construída pelos meios de comunicação.
Para Marina Colasanti, a imagem feminina é múltipla, com uma base fundamentada em dados reais. ''Ao mesmo tempo em que existe uma imagem corporal intensa da mulher, também vemos nos noticiários surgir mulheres atuantes em várias funções, ocupando posições de destaque na sociedade. Esses dois exemplos de mulheres correm juntos'', disse à Folha2. ''Claro que a mulher de cabeça feita se ressente da imagem apenas corporal da mulher e do universo que a acolhe. Tudo bem que haja caminhos, mas o que incomoda é que o País aplauda isso freneticamente''.
A jornalista acrescenta que atualmente há uma ênfase dada por programas de televisão, peças de teatro, tiras de quadrinhos e outros veículos em cima da mulher de 30 anos. ''É a mulher independente, que trabalha e não consegue 'arrumar um homem'. Isso vem atrelado a um conceito equivocado de que a mulher não consegue homem porque resolveu trabalhar. Ela pode não ter arrumado alguém por uma série de fatores. A visão de casamento, por exemplo, hoje interfere nisso. Muitas não querem casar e outras não encontraram alguém especial. A maioria não quer mais casar por casar. A mulher agora tem outros papéis sociais. Há sempre outros caminhos'', comentou.
Parte de uma geração que nos anos 50 já carregava a seu modo e sem ideologias a bandeira do feminismo, Marina Colasanti analisa que a mulher de hoje no Brasil ''recebeu a cama pronta''. ''Foram muitos os avanços. Mas nem todas estão conscientes desses avanços, abrem mão de continuar trabalhando e descuidam-se da manutenção dessas conquistas''.
Com relação aos modismos que contaminam jovens mulheres, Marina Colasanti aponta que o Brasil está vivendo um surto de ''manequismo''. ''O sucesso de top models como Gisele Bunchen agravou essa síndrome, na qual meninas de nove a 12 anos querem ser modelos. Sem dúvida é um mercado que existe. O inquietante é o caráter epidêmico disso''.
Outra questão que não é exclusividade feminina está relacionada à baixa qualidade de produtos oferecidos pela mídia e ao consumo compulsivo estimulado pelos desejos criados pelos veículos de comunicação. ''Vivemos em uma sociedade que quer seduzir para o mercado de consumo de massas, mas que não dá formação para isso. Só as faz compradoras. São programas de televisão de baixo nível, músicas com letras pornográficas. É muito constrangedor. É um erro da ganância de quem quer tirar tudo e não fornecer nada em troca''.
Aos 64 anos de idade, Marina Colasanti vê em seu interesse pela questão feminina, pelo comportamento da mulher, uma atuação política e de cidadania. ''Sou mulher, tenho uma atividade de pensamento e de reflexão sobre o mundo''.
Marina Colasanti nasceu em Asmara, na Eritréia (antiga ocupação da Etiópia), em setembro de 1937. Ainda criança morou na Líbia e na Itália, aos 11 anos veio para o Brasil, radicando-se com a família no Rio de Janeiro.
Na década de 50, como conta Ruy Castro em ''Ela é Carioca'' (Companhia das Letras), ela ''fez parte da revolucionária geração de garotas de Arpoador, que cortavam Ipanema na garupa de lambretas, pegavam 'jacaré' com os rapazes, desconfiavam do casamento tradicional, queriam trabalhar, morar sozinhas, seguir carreiras modernas e não deixavam que a culpa imposta por certos padrões sociais interferisse em suas vidas amorosas. À sua maneira, já eram feministas sem ideologia, sem rancor e sem sabê-lo''.
Nessa época, entre 1952 e 1956, a jovem Marina estudou pintura com Catarina Baratelle; logo depois foi para a Escola Nacional de Belas Artes e participou de vários salões de artes plásticas. No entanto, em 1962 ingressou no jornalismo, como colaboradora do Jornal do Brasil, e até 1994 trabalhou também em revistas como Fatos e Fotos, Claudia, Ele e Ela, Fairplay e Nova (na qual assinou uma coluna por 18 anos, conquistando um fiel público feminino).
A carreira literária começou em 1968, com a publicação do livro ''Eu Sozinha''. Até agora, foram mais de 35 obras de poesia, contos de fadas, crônicas, contos, ensaios e histórias infantis. O primeiro livro de poesia foi ''Cada Bicho seu Capricho'', publicado em 1992. Entre seus livros estão ''Rota de Colisão'', ''Eu Sei Mas Não Devia'', ''E Por Falar em Amor'', ''Contos de Amor Rasgados'' e ''Esse Amor de Todos Nós''.
De todos os gêneros, Marina Colasanti assume ter um apego especial pela poesia e pelos contos de fada que, apesar de sugerir textos infantis, são obras de literatura fantástica para todas as idades. ''Gosto dos contos de fada porque mexem com o inconsciente. Vivo muito na imaginação e essa é a literatura na qual viajo mais. Acho que se faz pouco diálogo com o inconsciente e isso para mim é sempre emocionante'', comenta. Ela já gravou dois CDs com esses contos.
Em sua carreira, Marina Colasanti ganhou mais de 20 prêmios em publicidade, além de quatro prêmios Jabuti (literatura), prêmios da Fundação Nacional do Livro Infanto Juvenil, prêmio da Câmara Brasileira do Livro e Grande Prêmio da Crítica da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA). Na década de 80, integrou o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.
Marina Colasanti também passou pela televisão, atuando como apresentadora dos programas Olho por Olho (TV Tupi), Primeira Mão (TV Rio), Os Mágicos, Sábado Forte e, por último, Imagens da Itália (TVE). Foi ainda roteirista do episódio ''Crescendo em Guerra e Paz'', para o seriado Malu Mulher (TV Globo). Questionada sobre possíveis trabalhos nesse veículo hoje em dia, ela diz que ''a tevê tem problemas com rostos de mulher mais velha''.
Casada desde 1970 com o poeta Affonso Romano de Sant'Anna, com o qual teve duas filhas, atualmente Marina Colasanti viaja o Brasil inteiro realizando palestras e participando de eventos que abordam a temática feminina, que está na base de quatro de seus livros (''A Nova Mulher'', ''Mulher Daqui Pra Frente'', ''Aqui entre Nós'' e ''Intimidade Pública''). Agora, ela prepara o lançamento de seu novo livro de poesias, ''Outras Palavras'', previsto ainda para este ano.


