Uma mulher de garra
Luiz Carlos Merten
Agência Folha
Quem viu as imagens do enterro de Gláuber Rocha, tal como foram transmitidas pela Globo, por certo não se esqueceu da mãe do diretor. Meio ensandecida, como uma personagem glauberiana, Lúcia Rocha gritava junto à sepultura: Você não está descendo meu filho, você subiu. Subiu aos céus como profeta que era, com certeza. Lúcia Rocha já foi chamada de mãe do Brasil. Talvez seja nossa encarnação da mãe coragem brechtiana. Miúda e frágil na aparência, é uma leoa quando se trata de defender o patrimônio cultural legado por seu filho. Por isso mesmo, não admira que tenha servido de inspiração para um filme e agora um livro.
Senador do PSDB pelo Distrito Federal, José Roberto Arruda escreveu Lúcia, a Mãe de Gláuber (Geração Editorial, 252 págs, R$ 26,00) para lançar luzes sobre essa personalidade singular e também para decifrar um enigma. Por que, no auge do desespero, essa mulher sorriu no dia do enterro do filho? É um livro ao mesmo tempo delicado e trágico, surpreendente e revelador. Pode (e deve) ser lido como um romance. Lúcia Rocha teve uma vida tão intensa que mais parece uma personagem de ficção. É possível que o filho tenha colocado traços dela nas personagens femininas mais marcantes de sua carreira: a Rosa de Deus e o Diabo na Terra do Sol, a Sara de Terra em Transe.
Gláuber era único e múltiplo. Não poderia ser reduzido a um só livro. José Roberto Arruda admite que deve a muitos autores que se debruçaram sobre Gláuber. Ivana Bentes (Cartas ao Mundo), Sidney Rezende (O Ideário de Gláuber Rocha), Orlando Senna (Roteiros do Terceiro Mundo) e João Carlos Teixeira Gomes (Esse Vulcão) foram fontes de pesquisas constantes.
Muito se escreveu e ainda escreve sobre ele, mas era preciso falar sobre sua mãe. Lúcia Rocha desempenhou um papel decisivo na vida de Gláuber e de toda a sua família. Foi uma segunda mãe para todos os parceiros de Gláuber na aventura do Cinema Novo. Incentivou e alimentou os sonhos mais delirantes do filho. Gastou os bens de sua abastada família para que ele fizesse cinema. A última casa deu o dinheiro para A Idade da Terra. Como define José Roberto Arruda: contando a história de Lúcia ele conta a história do Cinema Novo do ângulo de quem fazia a feijoada.
Sua vida teria que dar mesmo um romance. Uma história de amores e perdas. O marido, Adamastor, os filhos Ana Marcelina, Anecyr (que virou Anecy ao iniciar a carreira de atriz) e Gláuber, Guilardo, que foi sua paixão, todos se foram, deixando-a sozinha. Mas Lúcia Rocha, na verdade, nunca ficou sozinha. Virou sacerdotiza do culto a Gláuber. Criou e carrega nas costas o Tempo Gláuber, espaço em Botafogo, no Rio que guarda o acervo do artista. São 60 mil itens e documentos que preservam a memória (e a arte) do diretor. O livro é resultado de uma longa pesquisa.
Histórias de gente, personagens da vida real que vão tecendo uma trama verdadeira. A própria Lúcia já disse que só não ficou louca, depois de perder os três filhos, porque se recusou a isto. José Roberto Arruda reuniu mais de 200 horas gravadas para contar sua história. Recolheu frases memoráveis, que ajudam a traçar o perfil de Lúcia. De Gláuber, disse que ele morreu de Brasil. Dela própria, que tem a idade da terra. Do marido, Adamastor, que foi seu amor. De Guilardo, que foi a paixão e a paixão, sabe-se, é mais intensa e devastadora do que o amor.
Não há fecho melhor para essa história do que o escrito por Cacá Diegues, à guisa de apresentação. Diegues, que foi parceiro de Gláuber no Cinema Novo, diz que Dona Lúcia, como a chama, respeitosamente, é um desses personagens históricos que, não tendo deixado propriamente uma obra, ajudou a construir as circunstâncias em que toda uma geração de grandes artistas se expressou por meio da música, do teatro, da poesia, da televisão e, principalmente, do cinema. Muito já se escreveu sobre seu filho, ainda que muito falte escrever sobre ele, diz Diegues. Agora José Roberto Arruda faz justiça ao papel histórico de dona Lúcia, num livro inteiramente dedicado a ela, à saga de uma grande mulher brasileira. Faz sentido com o que o próprio Arruda diz: por trás do gênio, há sempre uma figura humana. Por meio de dona Lúcia, a mãe, ele ilumina também o filho e conta uma parte da história política e artística do Brasil.A vida da mãe de Gláuber Rocha, Lúcia, é contada num romance que mostra uma vida marcada de amores e perdas
Arquivo FolhaArquivo FolhaA trajetória mitológica de Gláuber Rocha se deve em parte à mãe, Lúcia (no detalhe). Dela, o cineasta teria colocado traços da personalidade em alguns de seus personagens





