Dona Gessie é uma mulher vaidosa. Sempre bem apresentável. No entanto, é a humildade aliada à simpatia e bom humor que a torna uma mulher interessante. Ela é capaz mesmo de ri de si mesma. ‘‘Adoro a vida. Dou muitas risadas, até sozinha. Não sei o que é mau humor talvez porque aceitei tudo o que a vida me reservou sem lamentar o que passou’’, diz ela.
Ela tem autoridade para fazer tais declarações. A vida, muitas vezes, lhe deu solavancos e Dona Gessie aguentou firme e forte. Por isso é que essa gaúcha de Erechim, tenha chegado aos 80 anos cheia de sabedoria. É uma mulher de garra. Tanto que foi por vontade própria que decidiu brecar a escolaridade no quarto ano primário. Os afazeres domésticos e o trabalho na tipografia (aliás a primeira de Erechim) tomavam completamente seu tempo. Mais para frente retomaria os estudos.
Com 15 anos de idade, ela e a família mudaram-se para São Paulo onde o pai abriu uma mercearia. E quem ficava para atender aos clientes? Ora, a Gessie e a mãe. O irônico da coisa toda: em frente ao estabelecimento havia um colégio. ‘‘Senti-me responsável pelo negócio e acabei resolvendo não estudar mais’’, afirma.
Aos 23 anos, casou e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde permaneceu cinco anos, e depois para Santos. Na cidade litorânea paulista, fixou residência por 11 anos. Foi lá no balneário que o casamento se desfez. Dona Gessie evita comentar o assunto – mas deixa escapar, nas entrelinhas, que o ex-marido mostrou a outra face que não aquela de quando o conheceu. As andanças continuaram e ela com as filhas – Vera Lúcia e Beatriz – foram para Atibaia onde permaneceram 18 anos.
Em Cambé, está há 10 anos. Veio por indicação de uma amiga freira. E está feliz da vida. ‘‘Já vivi em cidades grandes, mas prefiro cidades mais sossegadas e em Cambé é assim. Amo essa cidade, assim como amo o pôr-do-sol que é lindo’’, avisa.
Prendada é um dos adjetivos que melhor se enquadram quando é preciso classificar Dona Gessie. E ela fala com gosto de suas habilidade manuais – faz crochê (que aprendeu aos oito anos), pinturas em sabonetes, sachês e panos de prato e, apesar de há muito não praticar, também aprendeu a pintar em porcelana. Aos 10 anos de idade, apareceu um bandolim em sua casa e ela, claro, começou a dedilhar o instrumento. ‘‘Esqueci, mas se encontrar um professor de bandolim volto a fazer. Sou apaixonada também por violino que gostaria de aprender a tocar’’, avisa.
A octagenária poeta mora sozinha – uma das filhas reside em Londrina e a outra em Atibaia, que lhe deram dois netos, Pedro Luiz e Júlia. Depois que divorciou-se e enviuvou, não mais se casou. ‘‘Mesmo sem o amor do sexo oposto, eu me sinto útil como poeta. A poesia me faz sentir flutuando nas nuvens’’, conclui. O próximo projeto, e ela está se empenhando para tal, é a gravação de um CD com suas poesias musicadas pelo maestro Vitor Gorni. Alguém duvida que dona Gessie vai conseguir colocar em prática? (A.M.J.)

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