A constante serenidade estampada no rosto da atriz Bete Mendes não esconde a sua alegria em interpretar a Donana de ‘‘O Rei do Gado’’. Ao contrário da inexpressiva Dona Fátima de ‘‘Quatro por Quatro’’, a obstinada mulher do Zé do Araguaia exigiu de Bete um esforço redobrado na composição do personagem. Apesar da adoração ao seu patrão Bruno Mezenga, Donana não se esquiva de dizer o que pensa. ‘‘O Benedito não se contenta em recorrer a conceitos maniqueístas de bons ou maus. Todos os seus personagens são profundamente humanos’’, avalia a atriz.
Atualmente filiada ao Partido Popular Socialista, Bete recorda que a paixão pela televisão e a paixão pela política nasceram quase que simultaneamente. Nos tempos de estudante na cidade de Santos, no litoral paulista, Bete Mendes participava de um curso de teatro e, no intervalo das aulas, dava uma escapulida para as controvertidas reuniões do grêmio estudantil. ‘‘Nunca consegui desassociar essas duas atividades: algumas vezes, a prioridade era a política, outras, a carreira artística’’, pondera.
Embora não tenha sido fácil conciliar as duas profissões, Bete é categórica ao afirmar que nunca pensou em abrir mão da carreira de atriz. ‘‘A política nunca interferiu porque levo o meu trabalho muito a sério’’, afirma, não escondendo o orgulho que sente pela decisão tomada.
Hoje, Bete Mendes se diz realizada pela oportunidade de contracenar com atores do gabarito de Patrícia Pillar e Stênio Garcia. E aproveita a ocasião para condenar a perseguição da crítica ao sotaque de Bruno Mezenga, personagem vivido por Antônio Fagundes. ‘‘Ninguém imagina o quanto é difícil para um ator manter o ritmo de uma interpretação sem resvalar para o caricato’’, defende.
Você estreou na tevê em 1969, na novela ‘‘Beto Rockfeller’’, de Braúlio Pedroso. O que mudou nestes 27 anos de dramaturgia?
Bete Mendes - Houve muitas mudanças, mas a principal é do ponto de vista tecnológico. Hoje, desde a utilização de câmaras cada vez mais leves e modernas até a gravação de capítulos inteiros em outras locações que não os estúdios, as emissoras estão investindo cada vez mais na produção de novelas. Isso é engraçado porque gera uma curiosidade por parte do telespectador em relação a lugares que eles desconhecem por completo. Algumas pessoas me perguntam: ‘‘Araguaia... onde fica isso?’’.
A longa duração das novelas torna o formato desgastante para o ator?
Bete Mendes - O que é desgastante é ficar fazendo sempre a mesma coisa. Eu, por exemplo, procuro diversificar o meu trabalho na televisão: ora uma novela, ora uma minissérie. No entanto, pior do que se acomodar em um formato específico de dramaturgia é se acomodar em uma determinada caracterização ficcional. É o que alguns atores chamam de caracterização estratificada. No mais, ficar gravando num lugar como o Araguaia é maravilhoso. A novela podia durar até dois ou três anos que eu não me importava...
E qual foi a principal dificuldade na concepção da Donana?
Bete Mendes - Eu e o Stênio viajamos para o Araguaia com uma semana de antecedência do início das gravações a fim de aprender mais coisas sobre os moradores da região. Assim sendo, começamos a acordar cedo, ordenhar vacas, pesar gado e caminhar até 20 quilômetros por dia para aprimorar a composição de nossos personagens. No entanto, prefiro destacar o hábito que adquiri de gravar as minhas conversas com os moradores da região como o mais importante. Desse modo, podia estudar o jeito de falar e tentar fazer igual.
O autor Benedito Ruy Barbosa não perde o hábito de suscitar questões políticas. A novela pode cumprir uma função de conscientização de massas?
Bete Mendes - Esse enfoque depende muito de cada autor. A novela é uma obra de criação e como tal pode se concentrar tanto na observação do factual quanto no oferecimento de diversão ao telespectador. Na maioria das vezes, as novelas adquirem o caráter de uma crônica diária e, talvez por isso mesmo, acabem refletindo uma determinada realidade social.
O autor não está cedendo à tentação de glamourizar a questão dos sem-terra no País?
Bete Mendes - Não acredito. Ele tem abordado essa questão de um modo muito isento, tanto para o latifundiário quanto para o sem-terra. E tem outra coisa, o Benedito tem tido a preocupação de não assumir partidos: nem de um lado, nem do outro. Sou defensora da causa dos sem-terra e está sendo gratificante acompanhar a seriedade com a qual o Benedito trata o assunto.
Você sempre manteve uma militância política. Em sua opinião, o artista tem a obrigação social de assumir as suas posições políticas em público?
Bete Mendes - Não, o artista não tem obrigação nenhuma. Não se deve, por isso, cobrar do artista uma consciência política, porque essa atitude seria reacionária e mitificadora. O artista tem todo o direito de exprimir a sua opinião política e, principalmente, o direito de ser respeitado por ela.
Mas quando você passou a ter uma participação política mais efetiva?
Bete Mendes - Durante os anos da ditadura, além de ter sido presa e torturada, fui julgada no tribunal militar por subversão à ordem social. Quando fui absolvida, percebi que estava num caminho que não tinha mais volta. Desde então, procurei me engajar politicamente em todos os movimentos possíveis e imaginários: desde a anistia nacional e internacional até a causa dos negros, índios e mulheres... Não consegui mais parar.
Mas você chegou a sofrer alguma represália por parte do Comando de Caça aos Comunistas, um grupo terrorista de extrema direita?
Bete Mendes - Eu estava encenando a peça do Antunes Filho, ‘‘A Cozinha’’, quando fiquei sabendo no palco que o CCC estava depredando o teatro onde estava sendo representado o Roda viva, do Chico Buarque. Este foi o preço que muitos de meus colegas pagaram por tomarem a dianteira num debate político que, na ocasião, estava proibido na esfera institucional.
Você atuou em ‘‘Anos Rebeldes’’, minissérie de Gilberto Braga. Como foi a experiência de rememorar na ficção o que você já havia vivenciado na realidade?
Bete Mendes - Alguns dias de gravação foram realmente difíceis para mim. Quando gravei num dos prédios da Polícia Militar, no Rio, encontrei dificuldades porque tive acesso a algumas das celas e, embora tenha sido presa e torturada em São Paulo, isso me trouxe à lembrança todas as agruras da época. O Dênis Carvalho aproveitou a ocasião e pediu a minha colaboração no sentido de passar para os atores mais novos toda a minha experiência. No final das contas, digamos que o resultado tenha sido 90% de alegria e apenas 10% de sofrimento.
Em alguns momentos de sua carreira, você se sentiu preterida por causa de suas convicções políticas?
Bete Mendes - Posso dizer que fui absolutamente responsável pelas escolhas que fiz. Desde o início, sabia que a minha militância teria um preço a pagar. Nunca pensei em ser parlamentar mas, quando fui convidada a ser, percebi o quanto isso poderia prejudicar a minha carreira. Não podia simplesmente ser atriz e deputada ao mesmo tempo. Hoje, a minha relação de trabalho é mais suave porque todos já conhecem a Bete Mendes e as idéias que ela prega e defende.

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