UMA MISSÃO DE FÔLEGO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 06 de junho de 2001
Francelino França De Londrina 
A geografia humana do movimento ambientalista ganha no Brasil uma atualizada referência bibliográfica. A jornalista e ambientalista Teresa Urban faz o lançamento hoje em Curitiba do livro Missão (quase) Impossível Aventuras e Desventuras do Movimento Ambientalista no Brasil, sob o selo da Editora Fundação Peirópolis. Provavelmente, é o primeiro livro em que nomes importantes de militantes brasileiros de linhas de pensamentos distintas mas que se completam aparecem numa mesma obra. Nesse livro, estou olhando as pessoas, avisa a autora.
A base para reunir os nomes de militantes antigos foi uma pesquisa em que foram consultadas ONGs do setor sobre personagens e fatos que mais bem caracterizavam a trajetória de cada uma delas. Os dados encontrados no livro um levantamento antropológico do movimento ambientalista referem-se apenas aos questionários respondidos (10,9%). A autora resgata nomes que anteciparam importantes lutas ecológicas. Não esgotei assunto nenhum, não tenho a pretensão de dar panorama completo do ambientalismo, avisa.
Teresa Urban militou em diversas entidades associativas e registrou sua paixão explícita pelo meio ambiente publicando várias obras, entre elas, Bóias Frias, Saudade de Matão e nos Cadernos do Patrimônio publicou Tombamento da Serra do Mar e Lapa: Um Passeio pela Memória. Quando deixou o jornal O Estado de São Paulo, em 1991, organizou a Rede Verde de Informações Ambientais, que divulga informações sobre meio ambiente. Atualmente, Teresa Urban trabalha como diretora de redação da Folha de Londrina/Folha do Paraná e atua como conselheira do Instituto Sócio Ambiental de São Paulo.
Em Missão (quase) Impossível, a autora pretende mostrar quem são as pessoas que se preocuparam e se destacaram na defesa do meio ambiente. Admiro a generosidade daqueles que acreditam que podem mudar o planeta. A reportagem da Folha2 conversou com Teresa Urban sobre questões ambientais, as figuras fundamentais que impulsionaram o movimento pela defesa do meio ambiente. Ela até arrisca algumas reflexões sobre o futuro. A seguir, trechos da entrevista.
A pesquisa que serviu de base para o livro Missão (quase) Impossível resgatou nomes e formas de estruturação dos movimentos ambientalistas no Brasil. Qual a cara desse movimento aqui?
As organizações ambientalistas estão pulverizadas no País. Elas dependem de grupos pequenos. E a sociedade brasileira não é solidária em apoiar movimentos de interesses coletivos. A Rede Verde de Informações Ambientais foi a primeira que entendeu o potencial da internet e a capacidade dessa ferramenta em capitalizar a atenção das pessoas. A Rede Verde recebia mais de 100 ligações/dia na época do acidente com a plataforma da Petrobras (em março, na Bacia de Campos, RJ). E 70 ligações eram da imprensa estrangeira. A possibilidade de articulação do movimento veio pela internet.
No livro, você fala do protesto solitário do artista plástico Miguel Abellá, em 1973, contra a covarde agressão ambiental em São Paulo. Hoje, um protesto do gênero surte efeito? O que mudou na forma de reivindicar e protestar depois de quase 30 anos?
O movimento ambientalista partiu para o protesto-espetáculo. É preciso inventar e criar para chamar atenção e recorrer a ferramentas estranhas.
Um dos slogans citados no livro por Miguel Abellá registra um anti-manifesto de uma pessoa que procurava espaço para moradia: Nós somos mais importantes que o mico-leão. Avançamos depois desse desabafo?
Todos os seres vivos têm o direito de viver. A relação entre os seres vivos é de absoluta interdependência. Não temos chances de sobrevivência se exterminarmos as outras espécies. Essa crença de que nós somos mais importantes que os outros só fez aumentar essa idéia. Mas o rompimento dessas idéias se deu mais em função das ciências naturais do que da filosofia.
Outra figura de evidência em seu livro é o gaúcho Augusto Cesar Cunha Carneiro, apesar de importante para a história do movimento no Brasil ele é um nome sem repercussão fora do setor.
O Augusto Carneiro é o guardião da memória, ele reúne um conjunto de informações importantes sobre o que aconteceu no movimento ambientalista. Ele é uma pessoa antenada e tem uma lógica de pensamento muito particular.
José Lutzenberger, polêmico e instigante ambientalista gaúcho, explica que desenvolvimento sustentável é viver do desfrute da natureza e não do consumo. Ao pregar que a civilização precisa viver em harmonia, Lutzenberger acaba se tornando um líder utópico?
Alguns autores franceses argumentam que o ambientalismo é a nova utopia.
A atitude dos ambientalistas, muitas vezes, parece ser de extremistas. Isso acabou estigmatizando a imagem deles. É possível reunir uma posição de conciliadora e ambientalista?
O movimento ambientalista anda contra a maré. Ninguém está preocupado com um modelo econômico que respeite a natureza. O modelo de desenvolvimento é predador. Estamos caminhando num sentido extremamente perigoso e cuidar do meio ambiente custa caro. Então, é melhor não cuidar. Por isso, gera resistência. O risco de acidentes é sempre maior. Extremista é a Petrobras que no vazamento na Bacia de Campos jogou no mar milhões de litros de óleo. Extremista é o empresário que polui o meio ambiente. Esta atitude dele é de extrema irresponsabilidade.
Quais foram as maiores perdas ambientais que o Brasil sofreu?
A maior perda ambiental foi o desaparecimento das Sete Quedas (1982). Itaipu aconteceu porque o Brasil estava numa ditadura militar. Na época, as pessoas se juntando num quarup era um milagre. Hoje, o desaparecimento das Sete Quedas seria mais complicado. Como perdas, posso citar também o fim da floresta de araucária, também já foram detonados 92% da Mata Atlântica e de 50% do Cerrado. A Amazônia está sob risco permanente.
Diante deste quadro, o desenvolvimento sustentável é viável?
Esse termo é novo e padece de algumas incertezas. O economista Ignacy Sachs explica que o desenvolvimento sustentável está amparado em três pilares: justiça social, viabilidade econômica e respeito à natureza. Não dá para pensar em desenvolvimento sustentável de forma cartesiana.
Como funciona o ambientalismo moderno com marketing estruturado?
Acho que o melhor exemplo de como funciona o ambientalismo moderno é pela Fundação SOS Mata Atlântica. Uma fundação com imagem forte, com apoio da sociedade, que aposta nas mobilizações e, por isso, está presente nas ações.
Qual o caminho para que o cidadão entenda que ele é parte integrante do meio ambiente?
Falta conhecimento científico e muita informação. A noção de direito coletivo é muito tênue. Falta entender como funcionam os direitos de quem virá depois. Não temos estratégia para o futuro. As pessoas acreditam num ente miraculoso que é a tecnologia, que vai dar conta de tudo. Estamos no limiar do abismo e fomos longe demais no processo de consumo.
Missão (quase) Impossível, de Teresa Urban, Editora Fundação Peirópolis, será lançado hoje em Curitiba, às 19 horas, na livraria Saraiva Mega Store, no Crystal Plaza Shopping Center. Av. Comendador Araújo, 731. Preço: R$ 29,00.


