Um dos diretores mais influentes e inovadores da cena cinematográfica pop retorna com novo filme que quebra completamente os moldes. Ryan Coogler, que vem do sucesso de “Pantera Negra” e “Creed”, está causando com “The Sinners/Pecadores”, filme que entra nesta quinta (8), na quarta semana de exibição em salas, Londrina inclusive.

A principal razão para tanta aceitação (público & crítica) é que “The Sinners” é um filme "tutti frutti", uma melange de ideias, cores, sabores, sons e ritmos. Ele se enquadra no gênero de terror, mas também tem elementos de suspense, ação, drama social e grandguignol (black souls) . Há muitas outras coisas envolvidas na mistura, mas há um elemento que permanece firmemente tanto ao alcance imediato ou em segundo plano, quando não explode com toda força: a música.

É muito agradável que a espinha dorsal seja a trilha sonora do versátil compositor Ludwig Göransson, vencedor do Oscar por “Oppenheimer”; no entanto, não é totalmente satisfatório para o desenvolvimento do enredo em si, pois às vezes o nível sonoro, por imprimir tanta potência, sufoca os diálogos e não deixa a trama respirar. E considerando a duração do filme, que chega a 137 minutos, sua onipresença se torna avassaladora.

A título de sinopse condensada: os gêmeos Smoke e Slack (Michael B. Jordan vezes dois) retornam de Chicago em 1932, tendo feito fortuna convivendo com gângsteres e cometendo todo tipo de crimes. A ideia da dupla é investir seus lucros na abertura de uma boate em Clarksdale, Mississippi, uma cidade no meio rural onde pessoas comuns podem aproveitar música ao vivo, tomar alguns muitos drinques e jogar após longos dias de trabalho árduo nos campos de algodão.

A presença deles não deixa ninguém indiferente: encontrarão parentes como o sobrinho, o talentoso músico filho do pregador local; reacenderão a chama de antigos amores e terão que superar um passado que não queriam lembrar. Mas eles não enfrentarão apenas o desafio de reunir músicos e trabalhadores de toda a região para executar seu projeto. A área ao redor está cheia de ameaças, desde grupos de brancos supremacistas capazes do pior sob os capuzes da Ku Klux Klan até vampiros sanguinários determinados a espalhar sua praga, liderados por um irlandês cruel chamado Remmick (mas bom cantor e dançarino...) que causa estragos na noite de estreia.

Estilisticamente, o filme é uma miscelânea. Começa falando sobre a segregação racial e as péssimas condições de vida da população afro-americana, depois adota um tom mais leve para apresentar os gêmeos mafiosos, e só depois de uma hora de filmagem é que se aprofunda no medo de vampiros desvairados. Por isso, o filme, em tempo muito curto, fica um tanto complicado: os filmes de terror não podem ficar hesitantes a meio caminho, enquanto quem busca um filme divertido pode acabar se decepcionando ao ver algo mais violento e sangrento do que o esperado.

A mistura tonal tem dois dos seus aspectos mais desconcertantes e originais... com a desvantagem de que nem sempre funciona. Pensei comigo que, com alguns cortes na sala de edição, o filme poderia ter funcionado como uma locomotiva. “Pecadores” reúne uma equipe técnica e artística excelente, e tem outra virtude, como se dedicar ao máximo e não ter medo do ridículo, que se materializa vez ou outra. Mas justamente por essa ousadia é que o filme incorre em certos momentos, no mínimo, questionáveis.

Um dos leitmotivs da realização é que grandes músicos têm a capacidade de evocar o presente e o futuro, mas a tradução visual dessa ideia fica longe de ser perfeitamente realizada, apesar da playlist deliciosa.

Michael B. Jordan é o calcanhar de Aquiles do filme, parece fora de sua zona de conforto e, apesar dos esforços para interpretar dois papéis diferentes, ele não consegue diferenciar seus personagens além das roupas e das pessoas com quem eles interagem.

Aviso importante ao espectador: há uma sequência final, logo após os créditos, que é crucial para a compreensão mais abrangente do filme e dar a ele uma dimensão temporal. Neste momento, a sacra presença da lenda viva do blues, Buddy Guy, dá uma nova interpretação à aventura retratada e que acaba de ser narrada.

Em suma, é essencial a ideia central deste filme complexo, intrincado e irregular, somatória de tantos gêneros e estilos diferentes: música é arte, abandono e experiência transcendental para além do plano físico, através da qual se pode expiar pecados ou evocar o diabo. O que, em suma, te salva. Ou te condena.

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