ReproduçãoDaniel Day-Lewis e Winona Ryder, em ‘‘As Bruxas de Salem’’Embora temas como hipocrisia religiosa, perseguição, fanatismo e vingança passional sejam atemporais e universais, o filme ‘‘As Bruxas de Salem’’, que será exibido, hoje, às 21 horas, no Telecine, é assumidamente uma metáfora do macarthismo. Um movimento político, liderado pelo senador norte-americano Joseph McCarthy, que no período de 1940 a 1960 perseguiu intelectuais acusados de atividades comunistas. O filme, dirigido por Nicholas Hytner, é baseado na peça do dramaturgo Arthur Miller, escrita na década de 50.
O roteiro, adaptado pelo autor, atualmente com 81 anos, mantém todo o vigor e intensidade do texto original. Já a direção de Nicholas Hytner, que fez sua primeira incursão pelo cinema com o elogiado ‘‘As Loucuras do Rei George’’, imprimiu em ‘‘As Bruxas de Salem’’ a visão de um furacão criado pela incompreensão humana que se movimenta no pequeno vilarejo de Salem, interior de Massachusetts, destruindo tudo o que encontra pela frente. O filme é, essencialmente, uma história de medo e pânico diante do desconhecido.
A história começa com uma simples brincadeira de um grupo de adolescentes que dança em torno de uma fogueira, fazendo pedidos amorosos às forças do além. Flagradas por um reverendo, as meninas são acusadas de bruxaria. Para se defenderem, elas dizem que foram motivadas por pessoas da comunidade que estavam possuídas por espíritos maus. A denúncia assume proporções assustadoras, dando início a uma verdadeira caça às bruxas que leva dezenas de inocentes à morte. O elenco traz Daniel Day-Lewis, Winona Ryder, Joan Allen e o veterano Paul Scofield. Todos em grandes atuações. Joan Allen foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. O filme também foi indicado para Melhor Roteiro Adaptado.
‘‘As Bruxas de Salem’’ foi baseado em fatos reais ocorridos no século 17, quando a bruxaria era um crime punido com a forca. E, para externar sua perplexidade diante do macarthismo, Arthur Miller foi buscar no passado uma forma de criticar a histeria macarthista que assolava os Estados Unidos durante a Guerra Fria. Graças ao talento do diretor, o texto ganhou uma ótima versão cinematográfica. O resultado é um filme que se move com o ímpeto de um trem desgovernado. O pavor é o combustível para esta parábola sobre luxúria, culpa e mentira.
Apesar de ter sido ofuscado pelo brilho de Daniel Day-Lewis e Winona Ryder, a grande estrela do filme é o ator veterano Paul Scofield, que interpreta o juiz Danforth. Em 1966, ele ganhou o Oscar de Melhor Ator por sua atuação em ‘‘O Homem que Não Vendeu sua Alma’’. Sua interpretação em ‘‘As Bruxas de Salem’’ é econômica, porém grandiosa. Se valendo de breves silêncios e sutis movimentos de sobrancelhas, ele conseguiu transmitir a intensidade de seu personagem. Infelizmente, a Academia de Hollywood não deu a esta produção o valor merecido. Ao assistir ao filme, o espectador percebe que o tempo não diminuiu a relevância da obra de Arthur Miller. Ainda hoje, aquelas forças do passado operam no presente. Afinal, a busca de um bode expiatório faz parte da natureza humana.

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