Nova York -Polêmica legítima ou campanha de difamação? O filme ‘‘Uma Mente Brilhante’’ e seu personagem principal, o matemático John Forbes Nash, Jr., um gênio que lutou contra a esquizofrenia e chegou a ganhar um prêmio Nobel de Economia (1994), são os pivôs de uma controvérsia que pode prejudicar a participação da fita no Oscar, no dia 24. As acusações são de que o filme esconde fatos da vida do personagem, como suas escapadas gays, seu anti-semitismo e até um filho de um relacionamento fora do casamento.
Para Hollywood, o problema não é nenhum dos temas ‘‘batata-quente’’ que o filme deixou de segurar, mas o fato de que a trama centrada na love story dele com sua mulher, Alicia, pode ter sido maquiada para parecer mais atraente ao Oscar e outras premiações. Hollywood parece não gostar de cinebiografias mentirosas. O próprio estúdio Universal Pictures, que produziu o filme, teve de enfrentar uma polêmica semelhante dois anos atrás, quando ‘‘Hurricane - O Furacão’’ foi criticado por sua falta de precisão histórica. A fita de Norman Jewison, sobre a suposta prisão injusta do lutador de boxe Rubin ‘‘Hurricane’’ Carter, rendeu apenas uma indicação ao Oscar de melhor ator a Denzel Washington.
Para Stacey Snider, a presidente da Universal, que produziu o filme em parceria com o estúdio DreamWorks, a concorrência tem usado ‘‘táticas de guerra suja’’ no combate pelo Oscar de melhor filme. Segundo ela, ‘‘profissionais que fizeram um trabalho honesto e não produziram um filme especialmente para ganhar prêmios passaram a ter de defender suas intenções’’. A referência é ao diretor Ron Howard, que ganhou o prêmio do Sindicato dos Diretores de Hollywood e tem grandes chances de levar seu primeiro Oscar. Apesar de uma carreira de sucesso na terra do cinema, ele nunca havia sido indicado ao prêmio.
Na semana passada, o colunista da internet Matt Drudge, o responsável pelo furo do relacionamento entre a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky e o presidente Bill Clinton, acusou a produção do filme de deixar de fora da história as várias referências contra judeus que o matemático fez em 1967. De acordo com o colunista, o diretor e o produtor Brian Grazer tinham medo de que as citações poderiam ofender os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, onde a presença de judeus é grande. Drudge também disse que já soube de pelo menos três membros da instituição que mudaram seus votos depois de saber das declarações polêmicas.
‘‘A raiz de todo mal, pelo menos no que está relacionado com a minha vida, são os judeus.’’ Esta é uma das frases que aparecem no livro ‘‘A Beautiful Mind’’, de Sylvia Nasar. O matemático também era contra a criação do estado de Israel. Segundo a autora, os comentários fazem parte de seus surtos de loucura, quando ele acreditava estar em uma prisão e sentia-se ameaçado por judeus. Quando às indicações ao Oscar foram anunciadas, Drudge já tinha criticado ‘‘Uma Mente Brilhante’’ por não tocar no assunto das relações homossexuais do matemático e de suas traições à mulher (da qual chegou a se divorciar e com quem depois casou-se novamente).
Outro colunista que criticou o filme foi Roger Friedman, do web site FoxNews.com, que acha que a produção ‘‘está em piloto automático a caminho da autodestruição’’. Para ele, além das revelações sobre o passado de Nash, o astro da fita, Russell Crowe, também não ajuda. O mau comportamento do ator neozelandês após os British Academy Awards - o ator chegou a ameaçar o produtor de TV Malcolm Gerrie por ter editado da transmissão um poema lido por ele - também não teria caído bem em Hollywood.
A Universal já tinha previsto que a controvérsia ia ser grande. Na época em que o filme foi lançado nos cinemas dos Estados Unidos, em dezembro, o estúdio informou que a produção não era ‘‘um relato literal’’ da vida do matemático. Para Snider, o fato é que a trama do filme está centrada na ‘‘essência da vida do personagem’’ e isto não é uma representação ruim. Segundo ela, as declarações teriam sido tiradas de contexto na vida de um sujeito que lutou contra a esquizofrenia por 35 anos. Nash está vivo, com 73 anos, mas não fez nenhum comunicado à imprensa, por enquanto.
Outra acusação contra Nash é a de ter tido um caso com a enfermeira Elenor Stier quando estava internado em um hospital em 1951. A princípio, ele disse que estava feliz com a posterior gravidez dela, mas quando o bebê nasceu, em 1953, ele recusou-se a casar-se ou ajudar na criação do menino. Ele namorava Alicia na mesma época e casou-se com ela em 1957. Segundo a enfermeira, o filme faz Nash parecer ‘‘heróico’’, mas ele seria ‘‘um pouco mau’’, disse ela em entrevista para a colunista Jeannette Walls, da emissora de TV por assinatura MSNBC.
‘‘Eu acho que Nash acredita que o filme capturou fielmente o espírito de sua vida’’, disse Howard em uma entrevista recente.
Para ele, todos estes ‘‘detalhes’’ foram editados do filme porque eles tiravam a atenção da história principal, sua luta para manter a sanidade. ‘‘Eu acho que isto garante uma história mais fresca, mais emocionante, do que um documentário dramático que incluísse outros aspectos de sua vida.’’ As críticas também são feitas ao roteirista Akiva Goldsman.
Além da Universal Pictures, a Miramax, que defende nesta edição o filme ‘‘Entre Quatro Paredes’’, e a New Line Cinema, que faz campanha para ‘‘O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel’’, são as produtoras com mais chances de levar o Oscar de melhor filme. Ambos os estúdios negam com veemência que as acusações ao filme de Howard tenham saído de seus departamentos de marketing. ‘‘Uma Mente Brilhante’’ concorre a oito Oscars.

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