Uma luz sobre o passado
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de novembro de 1998
Celso Mattos 
Chega às telas Coração Iluminado, o sétimo filme do diretor Hector Babenco. Sobre este novo trabalho do cineasta, pode-se dizer que se trata de um filme com duas histórias reais. A que está retratada em celulóide e outra que antecedeu à produção. Em 1993, quando ficou pronta a primeira versão do roteiro, Babenco estava vivendo a pior fase de sua vida. O câncer linfático, diagnosticado há alguns anos, tinha se agravado. Enquanto se recuperava de um transplante de medula óssea, o médico disse que ele só se salvaria se encontrasse dentro dele aquilo que mais desejava realizar neste mundo.
Com esse conselho em mente, o cineasta saiu em busca de suas lembranças mais remotas. Foi a partir de fragmentos do passado que nasceu o desejo de fazer um filme contando como tinham sido belos alguns momentos de sua juventude. Em 1995, recuperado da doença, Hector Babenco retornou ao projeto disposto a fazer algumas alterações. Resolveu fazer Coração Iluminado falado em espanhol e não em inglês como havia previsto. Descartou um elenco de astros como Willem Dafoe, Nastassja Kinski e Irene Jacob para escalar os argentinos Walter Quiróz e Miguel Angel Solá. Para os papéis femininos, escolheu as brasileiras Xuxa Lopes e Maria Luisa Mendonça.
O roteiro escrito em parceria com o escritor argentino Ricardo Piglia conta a história de um homem que, após 20 anos, volta à sua cidade natal para visitar o pai que está doente. Descobre que sua primeira namorada, que ele imaginava ter morrido após um pacto suicida, está viva. Na busca desse amor da juventude, ele encontra outra mulher com quem revive a mesma paixão sem limites. Como se o tempo não tivesse passado e como se as duas mulheres fossem a mesma pessoa.
Além de ser um filme sobre a memória, Coração Iluminado é uma obra sobre a dor e a desesperança. Para fazer esse acerto de contas com o passado, Babenco e Ricardo Piglia fizeram sete versões do roteiro, num processo onde tudo foi depurado à exaustão. Das 250 páginas originais, sobraram 104, resultando num filme com 132 minutos de duração. A trilha sonora ficou sob a responsabilidade do polonês Zbigniew Preisner, colaborador do diretor Krzysotf Kieslowski em filmes como Não Matarás e A Dupla Vida de Veronique.
A grande dama do cinema argentino, Norma Aleandro tem uma participação especial como mãe de um dos personagens. Em 1985, ela ganhou a Palma de Ouro de melhor atriz no Festival de Cannes por sua atuação em A História Oficial. Vale lembrar que Coração Iluminado participou da Seleção Oficial do Festival de Cannes deste ano. Ao optar por fazer o filme falado em espanhol, com certeza, Babenco sabia que estava diminuindo as chances de uma carreira internacional para sua obra, mas ele parece não ter se arrependido.
Em todas as entrevistas para lançamento do filme, o cineasta fez questão de expressar a felicidade de um sonho realizado. Acredito que fui salvo pelo desejo de fazer este filme. Ele foi concebido numa fase sombria e difícil da minha vida, mas é como se beleza e dor caminhassem sempre juntas, disse o diretor. Por ser um projeto totalmente pessoal, Coração Iluminado pode não repetir o sucesso de outras produções de Hector Babenco como Pixote, O Beijo da Mulher Aranha e Ironweed, mas representa um momento muito especial na vida deste talentoso cineasta.


