São Paulo - Na primeira vez em que conversei com Raquel ao telefone, ela não me contou seu nome. Nunca havia falado com jornalista. Achou que era trote. Não queria tirar foto que pudesse marcá-la, temia ser exposta como prostituta e nunca mais perder o estigma. Planejava uma saída silenciosa assim que juntasse algum dinheiro.
Soube de Bruna Surfistinha quando segui o link enviado por um amigo para o site no qual clientes de garotas de programa as resenhavam. Ela ocupava o número 1 no ranking, já a favorita do ramo em São Paulo. Sua maior qualidade: ser carinhosa. Bruna se destacava não pelas habilidades na cama, mas pela atenção tenra que dedicava aos clientes no depois.
O que faz uma grande história tem um quê de mistério. Na de Raquel, havia um conflito íntimo que, tive a impressão naquela primeira conversa, ela mesmo não havia percebido ainda. Era uma menina, não tinha 20 anos. Recebia uns cinco a seis clientes por dia. Se entregava emocionalmente a cada um. E se feria a cada saída construindo seu pequeno inferno particular.
A reportagem revelando Bruna Surfistinha ao Brasil saiu publicada no site NoMínimo em 16 de agosto de 2004. Nas semanas e meses seguintes, a história de Raquel, ainda Bruna, explodiu. E ela foi quebrando cada uma das promessas que havia feito para si mesma. Sua foto foi publicada. Fez um filme pornográfico. Abraçou cada oportunidade em revista ou TV. E não aumentava o preço, tinha pena dos clientes antigos que não poderiam mais pagar.
Só o que guardou para si foi seu nome. Acompanhei a distância, com uma certa culpa, sua corrida alucinada. A cada foto, a cada declaração pública, ela se afastava mais da possibilidade de se entender com os pais adotivos. Seu inferno aumentava.
O primeiro ano de fama foi difícil. Teve pânico de ir à rua. Cercou-se de pessoas que não a conheciam mais pelo nome real. E, no entanto, de alguma forma, encontrou uma saída. Recuperou a própria identidade com o livro. Ao voltar a ser Raquel, transformou Bruna Surfistinha na personagem que era. Ao casar com um cliente, reinventou a própria vida.

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