Uma linguagem provocativa
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de maio de 2001
Francelino França De Londrina 
O espetáculo La Haine de La Musique, apresentado no Filo 2001 pela Compagnie Philippe Saire, da Suíça, continua rendendo polêmica. Depois de servir de tema para debates entre os alunos da Universidade Estadual de Londrina, o espetáculo continua sendo assunto no Cabaré do Filo. La Haine de La Musique surgiu após um trauma sonoro do coreógrafo em terras brasileiras. Esse ponto de partida serviu para que Saire nutrisse ainda mais a linguagem da dança contemporânea e com o teatro gestual para provocar reações. Esse caminho em que a dança ganha novo impulso com a expressão cênica parece sem volta.
Provavelmente, esse é o espetáculo que mais tenha atingido o público. Mesmo tendo dividido opiniões, Philippe Saire discutiu com sua proposta a função da arte e qual o papel que ela desempenha. Posição pouco assumida pelos encenadores atuais. Até na criação artística se quer segurança. Outra proposta implícita é o questionamento sobre qual a função da música? Se a música pode provocar estados alterados de consciência, o silêncio teria a mesma capacidade?
Enfim, La Haine de La Musique se mostrou provocativo quando exigiu do público um posicionamento diante do que foi apresentado. O público, via de regra, se acomoda nos espetáculos recompesadores, que se encaixam nas visões de mundo reduzidas, nas referências teatrais do showbusines e nos juízos de valores emprestados. La Haine... não se enquadra nesse modelo.
Como os bailarinos dançam a maior parte das coreografias no silêncio, Saire propõe ao público preencher os espaços vazios da trilha sonora com suas próprias referências musicais. Isso é desconfortante, faz prender a atenção nos movimentos coreográficos e reconher uma dramaturgia. Ao privar o público de um dos sentidos, Saire transmuta o silêncio em ruído. Em suas coreografias, as imagens fazem as marcações, substituindo a sonoplastia. Moldar o silêncio é para ouvidos sofisticados. Esse papel provocativo, de estranhamento e repulsivo tem nas artes plásticas mais representatividade.
Depois de assistir La Haine de La Musique ficou a dúvida sobre o que os ouvidos pensantes de Philippe Saire ouviram nesta turnê pelo Brasil. Tomara que essa viagem sonora tenha sido pelo menos instigante.


