Uma língua, várias sonoridades
A feira mundial Expo 98 reuniu em Portugal uma verdadeira miscelânea de artistas plásticos, compositores, cineastas, intelectuais, empresários, enfim, um leque imenso de produção, debate e divulgação de vários aspectos do conhecimento humano. Esse cenário também foi palco de protestos, manifestações e alertas.
Os frutos deste torvelinho cultural ainda estão pipocando e, aos poucos, alcançam o Brasil. É o caso do CD Onda Sonora, que chega ao País pela gravadora Trama. Produzido pela Red Hot Organization, o disco é uma homenagem aos estilos vinculados às sonoridades embasadas pela língua portuguesa. O dinheiro da vendagem é convertido para o combate e prevenção à Aids.
A faixa de abertura marca o encontro de David Byrne, ex-líder dos Talking Heads, com Caetano Veloso, em composição de ambos. O dueto contou com a cozinha percussiva de Carlinhos Brown e o batuque de Moreno Veloso no pandeiro.
Arquivo FolhaMarisa Monte participa com Carlinhos Brown e o cantor angolano BongaOs encontros continuam pelo CD, confrontando sonoridades, forçando o convívio de origens musicais distintas. Neste embate, alguns saem perdendo, como Filipe Mukenga, reconhecido compositor e cantor angolano que deslizou ao utilizar programação eletrônica de bateria comandada pelos DJs do grupo Underground Sound of Lisbon.
Outros tiveram boa convivência, como Carlinhos Brown, Marisa Monte e o angolano Bonga, autor de Mulemba Xangola, gravada pelos três com forte marcação percussiva e bons arranjos vocais.
No disco, percebe-se também a grande influência afro na musicalidade comandada pelos países de língua portuguesa. Essa presença é menos forte em Portugal, onde o fado continua aparecendo como grande expressão sonora.
A referência afro é destacada em Dukeles, composição do grupo espanhol Ketama interpretada ao lado de Djavan e da Banda Feminina Didá. Vinícius Cantuária e Naná Vasconcelos também seguem a tendência percussiva em Luz de Candeeiro, escrita por ambos. Outro exemplo são os tambores dágua e os cantos quase tribais dos Netos do NGumbé, de Guiné-Bissau.
O álbum também mostra influências pop, como um rap de General D embalado pelo suingue do FunknLata, do mangueirense Ivo Meirelles. O pop também circula pela curiosa O Cara Lindo, neo-bossa da brasileira Nina Miranda acompanhada pelo grupo inglês Smoke City, e adentra as malhas tradicionais do fado em Os Dias São À Noite, do competente Madredeus, entoada pela bela voz de Teresa Salgueiro.
Constituindo um capítulo à parte no lançamento, o fado marca presença também com a canadense K.D. Lang, em Fado Hilário. Canção de Engate, com os portugueses Delfins e Tô Ricciardi, além de Filipa Pais e Antônio Chaínho em Fado da Adiça, ressaltam a música portuguesa. Com mais destaques do que erros, Onda Sonora traz o deslize de todas as coletâneas: alguns nomes ficam de fora, enquanto outros menos importantes ganham espaço. Um problema quase impossível de contornar num projeto dessas proporções, e que não compromete o bom resultado.Arquivo FolhaCaetano Veloso gravou a faixa de abertura ao lado de David ByrneRanulfo Pedreiro





