Uma lição de coragem e solidariedade
Joaquim Custódio da Silva, o Traíra, é um dos personagens que mais fascinam os adolescentes. Ele tem 58 anos e passou grande parte desses anos retirando pessoas vítimas de afogamento dos rios da região. Conhece como ninguém o Rio das Cinzas e o Laranjinha. O Rio das Cinzas faz divisa com os municípios de Bandeirantes, Andirá e Itambaracá e já fez muitas vítimas por afogamento, inclusive crianças. Suas histórias envolvendo afogados e como mergulhava para retirá-los faz os adolescentes ficaram em silêncio total mesmo depois de sinal da última aula ter tocado.
O trabalho de resgatar os corpos, mergulhando em lugares onde até bombeiros tinham receio de entrar, era feito sem dia ou horário; as pessoas iam buscá-lo em casa pois sabiam que ele não se recusava. Hoje já não pode mais mergulhar como antes. Por não utilizar equipamentos adequados, os mergulhos profundos deixaram algumas sequelas: a surdez no ouvido direto e um tremor constante no lado esquerdo do corpo.
Os mergulhos para recuperar corpos começaram quando ele tinha 13 anos, foram mais de 40 anos tirando gente dos rios. Ele calcula que tirou mais de 150 pessoas dos rios da região. Traíra nunca cobrou por seu trabalho. ''Sempre fiz para ajudar a comunidade, nunca cobrei, sempre tive muito prazer em fazer essas coisas para quem me procurava.'' A experiência é tão grande que Traíra consegue saber, com pouca margem de erro, onde o corpo está apenas observando as águas do rio. Para ele é Deus quem guia seu trabalho e o respeito com o rio é grande. ''Cada vez que vou ao rio eu rezo para entrar nele.''
O apelido veio do tipo de peixe que pescava. Segundo ele, onde ninguém conseguia pegar traíra, ele pescava até mais de cem quilos por dia. Traíra define seu amor e respeito pelo rio: ''O rio foi meu patrão esses anos todos, ele me deu tudo, só não tenho estudo, mas o rio me ensinou tudo que eu sei, a nadar, pescar, tirar gente da água, ser educado, respeitar a natureza.''
A preocupação com a preservação dos rios se tornou uma constante na vida de Traíra que sabe da importância da mata ciliar e tenta passar para as novas gerações essa responsabilidade com o meio ambiente. Com a demonstração de respeito e amor pela natureza conseguiu muitos colaboradores entre os estudantes envolvidos no projeto que estão ajudando no reflorestamento das margens do Rio das Cinzas. (C.P.)





