Uma leve pitada de Jazz
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sexta-feira, 22 de agosto de 1997
Antônio Mariano Júnior Londrina 
Kraw Penas/Arquivo FolhaRosa Passos: intimidade e sintonia com Lula Galvão na reverência a Ary BarrosoSeria mais um disco de regravações de canções conhecidíssimas de Ary Barroso. Seria. Acontece que a voz da vez é da baiana Rosa Passos e, consequentemente, a coisa toda muda de figura. Muda, podem acreditar. O que poderia ser trivial soa instigante já que, desta vez, Ary Barroso ganha um leve solavanco jazzístico sem perder, no entanto, a brasilidade. Trata-se do terceiro projeto da série Letra e Música, produzido e idealizado por Almir Chediak que tem por propósito conclamar uma dupla de bambas da MPB para jogar loas a um determinado compositor - os anteriores foram Leny Andrade e Cristovão Bastos cantando Tom Jobim; e Marinho Boffa e João Nogueira cantando Chico Buarque.
No caso de Ary Barroso, o parceiro de Rosa Passos é o violonista e arranjador Lula Galvão. Mais íntimos, impossível. Tocam lado a lado há encarnações. Falam o mesmo dialeto musical. Porém, o mais impressionante é que Rosa mais Lula conseguiram a proeza de revestir deliciosamente as trezes faixas de modo a não desestimular o ouvinte que já ouviu zilhões de vezes, por exemplo, Isto Aqui O Que É e Aquarela do Brasil.
A fórmula para prender a atenção é simples. Simples, em termos. Ora, dividir compassos, prolongar frases musicais e explorar tessituras vocais sem cair na estridência ou na sonolência não é tarefa para qualquer um. E Rosa faz isso com habilidade tamanha que chega a comover pedras mesmo quando reparte o microfone com um certo Emílio Santiago em No Tabuleiro da Baiana. Foram tantas aquarelas, tantas coisinhas miúdas, tantos pout-pourris que o rapaz perdeu o suingue da cor.
Como intérprete, Rosa ainda se mantém fiel ao minimalismo joaogilbertiano. Só que ela se permite ser brejeira e até mesmo soltar, assim de leve, algo que sugira vibrato. O canto de Rosa, a inflexão de sua voz, o charme do sotaque baiano torna esse Letra e Música um convite à contemplação a parte do legado musical de Ary Barroso. Obviamente, Lula Galvão tem sua parcela de contribuição. Ele é quem assina o arranjo de nove músicas. Seu violão dispensa maiores comentários.
Rosa assina o arranjo em quatro faixas. E aí, senhores, dá-lhe divisões interessantes como acontece em Camisa Amarela e Aquarela do Brasil (que ela já havia feito maravilhas no disco Curare). Fica assim: Letra e Música Ary Barroso não é apenas um tributo. É, sobretudo, um disco genial feito pela genial Rosa Passos e seu fiel Lula Galvão. E genialidade, saibam, sempre vem de forma sutil. Basta ouvir Inquietação e estamos conversados.
Grife sofisticadaEra final do ano passado. Rosa estava voltando de uma turnê pelo Japão quando recebeu o convite para gravar o Letra e Música de Almir Chediak, o mago dos songbooks. Topou na hora. Motivo: Ary é um de seus compositores favoritos. O repertório foi basicamente escolhido por ela. E, como explica, não encontrou muita dificuldade apesar de o homenageado ter composto quase 500 músicas.
As músicas escolhidas obedeceram a critérios pessoais. Coincidentemente, são bastante conhecidas. Tenho muita afinidade e intimidade com essas músicas. Além disso, o que mais me chama a atenção na obra do Ary é a brasilidade tanto harmônica quanto melódica- diz Rosa Passos.
Claro, as comparações com outros discos-tributos a Ary Barroso são inevitáveis - Gal Costa, por exemplo, fez, em 80, um disco só com músicas deles; e, há três anos Almir Chediak organizou um songbook com três volumes. Acontece que Rosa Passos é, sobretudo, uma estilista e não apenas uma intérprete preocupada apenas em enriquecer currículo e dar a famosa contribuição à história da MPB. Daí, a diferença
Rosa, claro, preocupou-se em dar a tal contribuição. Mas em nenhum momento esqueceu-se de imprimir sua grife cara e sofisticada. Sou detalhista na roupagem que dou às músicas- resume. E ela vai mais longe: Pra Machucar Meu Coração, só para citar um exemplo, eu deixei diferente das demais gravações. Descobri que poderia segurar notas. Achei caminhos que outros não acharam- afirma.
Mas não é só pelo disco que Rosa Passos se encontra em estado de graça. O outro motivo é que ela acaba de voltar de uma turnê pela Europa onde arrancou elogios de críticos severos e de públicos ávidos por boa música. Por essas e outras é que a cantora e compositora está cada vez mais centrando seu trabalho no exterior onde seus discos têm boa aceitação. Há muito tempo já descobri que santo de casa não faz milagres- admite. Sim, no exterior ela é quase uma divindade...Quando é que o Brasil vai começar a bater cabeça para ela?


