UMA LENDA DO FAGOTE
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de julho de 2001
Rodrigo Souza Grota De Londrina 
Calais, 1929. O que poderia acontecer nesta pequena cidade francesa no mesmo ano em que a bolsa de valores de Nova York enfrentava sua pior crise? O nascimento de um dos maiores dominadores de um instrumento não muito usual o fagote. O francês Noel Devos, que pela terceira vez comparece ao Festival de Música de Londrina, é considerado uma lenda viva da música erudita, um mestre do fagote.
Ele veio para se apresentar em um concerto de câmara e ministrar um curso do seu instrumento predileto. Devos é íntimo do universo musical há longa data, desde que começou a estudar bem garoto em sua cidade. Seu pai e seus irmãos eram músicos, e aos sete anos Devos já estudava teoria musical. Fazíamos uma bandinha sempre... Acredito que o ambiente faz as pessoas, sentencia o músico, que conversa com o repórter em português, língua que pratica há quase 50 anos, desde que Devos aportou no Brasil para tocar com a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). Nessa época, Devos se dedicava ao saxofone, instrumento privilegiado pelo jazz que estourava nas rádios francesas. Com a morte precipitada de um de seus irmãos, que tocava sax, ele se abriu para novos instrumentos.
Estudou harmonia com um padre no sul da França, no período do auge da guerra. Nós tínhamos aula em um ambiente protegido contra os bombardeios aéreos. Finda a guerra, ele voltou para a sua cidade natal e desenvolveu outros dons começou a desenhar e entrou em um grupo de teatro de Calais. Preferiu a arquitetura, matéria a que se dedicou por alguns anos. A arquitetura ajuda muito na música. A estrutura de um prédio, por exemplo, é uma sinfonia justifica, reforçando a idéia de que a música transita entre a explosão artística e o rigor científico da matemática.
Devos lembra que sua passagem pela Escola de Belas Artes contribuiu para desenvolver a sua imaginação. Na ocasião, teve aulas com renomado professor francês, Julien Clouet. Pôde reformular toda a sua visão sobre interpretação. Quando percebi que muito da interpretação está ligada à anatomia, às condições de cada um, criei uma escola de fagote. Devos seguia o princípio que o professor deve mostrar o outro lado para o aluno.
Em 1948, apresentou-se em Paris, e obteve a sua primeira grande premiação. Em 1951, novo reconhecimento, agora por unanimidade primeiro lugar no concurso público em Paris. Nesse mesmo ano, Eliezer de Carvalho convidou o músico para integrar a OSB, tradicional orquestra brasileira, fundada em 1940, e a única de caráter privado no País. Devos aceitou a oferta e no ano seguinte veio ao Brasil e conheceu a violoncelista Ana Bezerra de Mello. Estava firmado um compromisso que mantém o músico até hoje em nossas terras.
Desde que se fixou no Rio de Janeiro, em 1952, Devos desenvolveu vários projetos. Lecionou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tocou em quartetos e quintetos de música, fundou um quarteto de fagotes. Nos anos 50, um encontro que ele guardaria para sempre conheceu o gênio da humanidade (como definiu Guinga) Heitor Villa-Lobos.
O músico francês já tinha ouvido Villa em seu País, onde era muito respeitado. Aliás, Devos se entusiasma ao comentar o gênio criativo do brasileiro. Ele não era um compositor. Era um criador. Pegava o lápis, o papel e se soltava. Villa pediu para Devos executar um de seus concertos para fagote e logo teve a recompensa. A mulher de Villa, dona Arminda, chegou a pedir para que Devos administrasse cursos sobre o brasileiro. Mas não é só de Villa que Devos gosta. Ele faz questão de lembrar outro grande compositor brasileiro Francisco Mignone. Ele fez 16 preciosas valsas para o fagote.
Apesar da bela sonoridade, o fagote ainda não é muito comum entre os músicos. Se você vai comprar uma flauta, 200 ou 300 dólares bastam. Agora, se você for comprar um fagote, são necessários 2 ou 3 mil dólares. Isto impede que novos músicos aprendam sobre este instrumento.


