Uma leitura não muito necessária
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de novembro de 1997
Antônio Mariano Júnior 
Londrina
DivulgaçãoCaetano Veloso: repetitivo em Livro, no novo disco faltam lampejos de criatividadeHá uma máxima que escorre como água por aí: tudo o que vem de Caetano Veloso é pouco questionável. Essa e outras máximas precisam ser revistas. Urgentemente. E com distanciamento imenso entre o intelectual Caetano Veloso, o polêmico Caetano Veloso, o totem Caetano Veloso, a neguinha Caetano Veloso, o poeta Caetano Veloso, o escritor Caetano Veloso, o ídolo Caetano Veloso e o compositor Caetano Veloso. Caetano tem que ser visto por partes mesmo que, em se tratando de uma celebridade complexa, muitas vezes seja difícil dissociá-las. Tentemos. O compositor, pois bem, é que está em foco já que depois de sete anos sem lançar um disco solo com músicas inéditas, o dito cujo aparece com Livro (Polygram). Um trabalho duvidoso em que mister Veloso se mostra desorientado e, quem diria, repetitivo e/ou desinspirado.
Há um Caetano perdido na percussão. Há muita percussão que não se revela necessária e inteligente. O letrista se mostra não muito afiado. Idéias e motes nada originais. Nada banal, porém nada que instigue guetos intelectualóides ou tietes com seus adjetivos óbvios quando se cita o nome do totem baiano. Caetano Veloso concebeu um trabalho que não acrescenta quase nada ao seu rico cancioneiro.
Sempre se espera muito de alguém da envergadura de Velô. É natural que se cobre superações a cada novo lançamento. Ou, pelo menos, um arroz com feijão recheado com sazon, aliás, com amor mesmo com toques comerciais. E Livro é algo que, infelizmente, não tem muito amor. É cerebral, feito assim, assim. Uma pena. Uma judiação. Faltam lampejos de criatividade.
A produção é assinada por ele e Jaques Morelenbaum. Catorze faixas. Tum-tum-tum a dar com pau. Pieguices como Você é Minha (sim, algo açucarado calcado em cima de Você é Linda). Mas naquele tempo eu não sabia/Que isso é que dissiparia a treva/Em que o amor lançou meu coração/Você é minha. Ninguém se atreva, Porque nós dois somos um time campeão.
Nós dois somos um time campeão. Isso é Caetano? Que Caetano é esse despreocupado com a assepsia poética? Mais: Um Tom, feita para o filho mais novo: Ah, como é bom dormir/Ah, como é bom despertar/O céu é mais aqui/Um tom é um bom lugar. A alma do poeta está adormecida. Acordem-no. Há o Caetano cerebral - ou cabeça, um termo tão antigo quanto algumas de suas idéias. Livro, que faz referência explícita a Chão de Estrela, é um amontoado de elucubrações mal-ajambradas, mal desenvolvidas.
Idéias e idéias, referências e referências. Bacana isso. Na atonal Doideca Caetano cede seu eterno lugar de mestre para se mostrar um aplicado aluno de Arrigo Barnabé. Os nomes da vez - um costume comum de citar em seus disco alguém ou alguns de sua preferência pessoal - passam, claro, por Arrigo, José Miguel Wisnick, Tom Zé e vai daí. Hum!! A perguntinha: que ele quis dizer com a letra mesmo?
Navio negreiroO batuquê. Como falar do disco sem falar da percussão que o permeia quase por inteiro. Não é axé-music? Ou seria axé-music filtrado à moda caetaneana? A última opção é a mais provável. E é em cima dessa provável opção que fica a pergunta: por que? Ou, pra quê? Que mais tambores, repiques, timbaus têm a acrescentar de original numa época em que não se consegue mais distinguir o que presta e o que não presta na dita atual música baiana? E Caetano aparece com tum-tum-tum.
Não bastasse, Jaques Morelenbaum, competente é certo, acaba por se confirmar como uma espécie de alter ego musical de Velô. E aonde o tambor vai, as cordas vão atrás. Há algo de original? Não. Não há. Mas se o formato escolhido é esse, fica assim: Caetano e seus tambores estão mais para os quadris do que para o coração. Exemplo: Não Enche, a mais comercial do disco, parece ter sido uma sobra da trilha sonora de Tieta. A letra, de uma simplicidade franciscana, acaba por cair logo no gosto popular. É ouvir uma vez e sair cantando muitas vezes.
Dá-se ele ao direito de gravar, pela primeira vez, sensibilidades como Minha Voz, Minha Vida (de 80, registrada por Gal Costa) e Onde o Rio é mais Baiano (94, já gravadas anteriormente por Bethânia e Alcione). Essas junto com Manhatã (dedicada a Lulu Santos) trazem o Caetano sereno (em termos, é claro) de volta à terra.
Não se sabe se Caetano, resignado, deixou de perguntar a deus e ao mundo se o Haiti é aqui. É. Não é. Deve ser. Se for, que seja e pronto. Desta vez, mister Veloso não quis tocar mais profundamente em questões sociológicas ou chagas antropológicas demasiadamente expostas. Não, não. Ele não aponta com dedo em riste nada de pessoal nesse sentido. Preferiu recorrer à idéias alheias - no bom sentido, por favor - e se deu bem.
Fragmentos de O Navio Negreiro (Castro Alves) transformado num pseudo-rap é um dos momentos mais marcantes do disco. Maria Bethânia empresta sua alteza para, junto ao irmão, declamar um dos trechos mais bonitos. É impressionante. Na retaguarda, Carlinhos Brown dá sua precisa (desta vez, sim) percussão.
Alexandre, o GrandeSurpresa maior, aliás a melhor, é a deliciosa How Beautiful Could A Being Be (Moreno Veloso), um samba de roda com influências moderninhas. Há algo de Araçá Azul no ar. Saudades do Caetano musicalmente subversivo. Ah, sim, Caetano também sabe contar historinha de mitos. Sob as vibrações de Jorge Benjor - que para contar sagas parece utilizar a mesma música - Veloso narra, no melhor estilo sua vida, sua obra o que se assucedeu com Alexandre, o Grande. A letra tem dois quilômetros de extensão. Mas, ao contrário de Benjor, Caetano buscou uma forma gostosa de expor seu parecer sobre o Grande, tanto em música quanto em letra.
E, para terminar com chave banhada a ouro, Caetano canta Pra Ninguém, numa referência a Paratodos, de Chico Buarque. Aí, gente, ele cita alguns intérpretes e canções que, ao seu ver, são exemplares. Sem comentários. Como diria Rita Lee: O disco é meu e homenageio quem eu quero. Então fica assim: Livro é apenas um disco. Nada mais que um disco.
Daqueles discos que com o passar do tempo, de tanto ouvir, acaba-se por se acostumar e até achar certa lógica e graça. Mas até que esse dia chegue fica a pergunta: o que Caetano quis dizer mesmo?


