Uma intérprete sem preconceitos
Não dá, assim de supetão, para se afirmar: foram tantos discos gravados. Nem mesmo foram tantas cópias vendidas. Nem Claudette Soares sabe. Por via de regra, são mais de 40 obras, excluídos os discos de 78 rotações e os compactos simples e duplos. Números, no caso dela, chegam a ser um mero detalhe porque a carreira de Claudette Soares, 60 anos, foi marcada principalmente pela ousadia e pela coragem em atirar para todos os lados, musicalmente falando, sem apelar para o grotesco. Ah, com ela foi sempre assim: gostava, gravava. Ao mundo discográfico, veio à luz sob o estigma de cantora de Bossa Nova.
E foi com isso, na década de 60, que por sugestão de Ronaldo Bôscoli, deixou o Rio de Janeiro, onde nasceu, para divulgar a Bossa Nova em São Paulo. Tá, fez o que tinha que fazer. E fez bem feito. Em 67, recebeu de presente uma das maiores pérolas da dupla dinâmica Roberto-Erasmo Carlos - Como é Grande o Meu Amor Por Você (de onde saiu o nome do disco). Foi a primeira a gravá-la, aliás.
O fato de ter ido cantar a tal canção no Programa Jovem Guarda custou-lhe um certo preço: ficou suspensa durante um ano do programa O Fino da Bossa, comandada por Elis Regina. E Claudette foi em frente. Cantando e gravando o que lhe dava na telha. E assim sendo, lançou Taiguara, também em 67, ao cantar Hoje, no show 1º Tempo 5x0. Não bastasse, no ano seguinte gravou um disco só com músicas de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque.
Mas a coisa não parou por aí não. Em 69, sob olhares duvidosos e preconceituosos de uns e outros, lançou Gonzaguinha cantando Mundo Novo, Vida Nova, no Festival Universitário. Enfim, Claudette Soares passeou por vários estilos e cantou músicas dos três principais movimentos musicais brasileiros - Bossa Nova, Jovem Guarda e Tropicália - e saiu, mesmo com algumas cobranças, ilesa. Nunca fui radical- diz ela, com toda a propriedade.
A carreira começou no programa A Raia Miúda, de Renato Murce, que era transmitido pela Rádio Nacional. Outros programas vieram, entre eles o Salve o Baião, na Rádio Tupi, em que Luiz Gonzaga chegou a saudá-la como a Princesinha do Baião. Não a chamou de rainha por ser, palavras do mestre, moderninha demais.
Aí veio a Bossa Nova, quando substituiu Sylvinha Teles, sua grande amiga, no final da década de 50, num show. O local, a Boate Plaza, no Rio de Janeiro. O mesmo local onde um certo Roberto Carlos era crooner. E por falar no tal rei, não se pode deixar de sentir a ausência do dito cujo no mais recente disco. Falei com ele, pedi autorização das músicas, mas eu não pedi participação. Não sei... Talvez eu esperasse que ele perguntasse se eu não o convidaria para participar do disco- diz ela.
Enfim, o tempo passou e Claudette Soares, agora morando novamente no Rio de Janeiro depois de 20 anos em São Paulo, está completando 50 anos de carreira. Rótulos, impossível colá-los nela. Claro, a Bossa Nova será minha fonte, mas as pessoas sabem que eu vou para todos os caminhos. Agora, se for para ser classificada eu preferiria ser chamada de intérprete romântica, daquelas que cortam os pulsos- afirma com seu invejável bom humor. (A.M.J.)





