Uma intérprete marcante
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quinta-feira, 02 de maio de 2002
Equipe da Folha 
Curitiba O mundo musical tem cantores que a nova geração nunca ouviu falar. E se por acaso ouve alguma faixa de velhos discos, muitas vezes se surpreende pela modernidade do som. Foi o que aconteceu com o produtor Rodrigo Faour, que ocasionalmente ouviu Leny Eversong numa fita que deveria ser regravada com novas músicas, a pedido de um amigo. Impressionado com a cantora, levantou a ficha completa, foi atrás de antigos discos no Brasil e exterior e o resultado está no CD A Voz Poderosa de Leny Eversong, lançado pela Som Livre.
Leny foi uma dessas grandes intérpretes que em plenos anos 50 não se limitou ao sucesso nacional com seu vozeirão potente, iluminado, cheio de nuances empolgou platéias americanas e européias. Morou fora do Brasil durante alguns anos, daí o trabalho de Faour em vasculhar sebos e coleções de estudiosos aqui e no exterior. No CD que está nas lojas Leny Eversong canta em 20 faixas.
A marca da cantora está na faixa 11: Jezebel, de Wayne Shanklin. A música caiu como uma luva para sua forma explosiva de interpretar. Gravada em 1952 num 78 rpm, pela Copacabana, teve mais duas regravações: em 1955, no LP A Voz de Leny Eversong e en 1957 no LP Introducing Leny Eversong, pela Coral Records. Segundo Rodrigo Faour este é o registro definitivo: Uma faixa apoteótica! Jezebel é interpretada em inglês, como acontece em outras músicas, mas também tem Sereno, Marina, Olhando Estrelas (versão de Look for a star), Esmagando Rosas, Granada e canções em francês.
Os registros ocupam um período entre os anos 50 e começo de 60. Nascida em Santos, em 1920, Leny começou cedo a carreira: aos 12 anos era atração da Rádio Clube local. Depois de passar por um teste, foi contratada para a programação noturna da emissora. Até então ainda era Hilda Campos Soares da Silva, mais conhecida como Hildinha, a Princesa do Fox, porque seu repertório dividia-se entre música brasileira e foxes norte-americano. Aos 15 anos mudou-se para a Rádio Atlântica, trocou o nome para Leny Eversong e passou a cantar em inglês. Dois anos depois estava na Rádio Tupi, no Rio de Janeiro.
Nos Estados Unidos apresentou-se no famoso Ed Sullivan Show. Entusiasmado, o apresentador disse em cadeia nacional, para um público de 80 milhões de telespectadores, que Leny era a maior voz do mundo. Entre as grandes personalidades que a aplaudiram na época estavam Frank Sinatra e Sammy Davis Jr. Os convites levaram a artista para diversos países como a Holanda, Alemanha, Bélgica, Itália, Cuba, Porto Rico e da América do Sul.
Embora não tenha ocupado os primeiros lugares das paradas como Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Emilinha Borba mesmo assim a cantora tinha espaço e público cativo. Um episódio feriu-a mortalmente no começo dos anos 70: seu marido Nei Campos saiu para comprar cigarros e desapareceu.
Como ainda eram tempos obscuros com a militarização do governo, ficou a incógnita sobre esse sumiço. Inconformada, Leny correu o País feito uma doida, procurando por Campos. Ao mesmo tempo a nova geração execrava os cantores da bossa velha, e nessa somatória a artista também sumiu do cenário. Morreu no dia 29 de abril de 1984, em São Paulo, aos 63 anos de idade. Mas, para quem acompanhou os festivais da Record, permanece inalterável a imagem de Leny, gestos largos, obesa, generosa, levantando a platéia ao interpretar Lá Vem o Bloco. Aliás, os aplausos começavam antes dela terminar a música, mais precisamente quando começava o estribilho: Só o luar na janela/ mais um no bloco... Foi uma das últimas imagens marcantes da cantora, agora valorizada com o lançamento da Som Livre.


