O que Mônica Salmaso fez durante os quatro anos longe das gravações? Muitas coisas: apresentações em palcos do exterior e do Brasil, tocando o projeto ''Ponto in Comum'' e resolvendo pendengas fonográficas seus discos anteriores estavam fora de catálogo, sem prateleiras para se insinuar aos compradores. Como integrante do elenco da seleta gravadora Biscoito Fino, Mônica pode, enfim, colocar o pé na estrada e divulgar seu novo apego às platéias. Quem estaria esperando por ela? ''Meu público não tem há um perfil definido, não é facilmente localizável. O que posso dizer é que se trata de um pessoas que gostam de música boa'', analisa Mônica.
Ela tem razão! Por outro lado, pode ela ainda não ter sido focada pela grande mídia, mas o prestígio conquistado nada tasca. Cult ou diva em formação, o fato é que a trajetória de Mônica Salmaso vem se consolidando sem maiores afetações ou estratégias milimetricamente planejadas. Assim: um artista valoroso não se submete a regras duvidosas nem comete inverdades estéticas. ''Se eu tivesse que pedir alguma coisa para minha carreira, eu pediria que continuasse do jeito que está para sempre'', diz.
Uma das características de Mônica Salmaso é a cumplicidade que mantém com o passado musical brasileiro, a maneira com lança olhos embevecidos a autores da dita velha guarda sem deixar espanar sua contemporaneidade artística. O que para ela é natural e instintivo, para alguns novos artistas reler antigas canções soa como novidade. Mônica contemporiza: ''Eu tenho a impressão de que a nova geração está de olho na MPB de outros tempos como se houvesse uma necessidade de reapropriação''. Não à toa, Dorival Caymmi é autor recorrente em sua ainda breve, porém imponente discografia. Chico Buarque é outro ponto de referência e presença garantida em sua obra.
A ocupação com o resgate começou logo no primeiro disco, ''Afro-sambas - de Baden Powell e Vinicius de Moraes'', de 96, juntamente com o instrumentista Paulo Bellinati. Ao título foram acrescidos os solos ''Trampolim'' (98) e ''Voadeira'' (99) este último registrado graças o Prêmio Visa que faturou no mesmo ano. Trabalhos consistentes adquiridos por um público exigente. Elitismo? ''Eu acredito que um trabalho torna-se elitista quando não encontra vias de divulgação'', analisa.
Se é cantora ou intérprete, Mônica sai pela tangente com elegância. ''Sou antes de tudo musicista porque eu me preocupo muito com o som'', afirma. Queira ou não, o rótulo de intérprete do primeiro escalão já lhe foi colado. Com linguagem própria e estilo acentado, Mônica, com toda dignidade musical, já veio ao mundo musical para deixar bem claro que pertence à linhagem nobre da música popular brasileira. Brasileira e de qualidade, diga-se. (A.M.J.)

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