Uma intérprete com o
coração na garganta
Muitos cantaram, cantam e ainda hão de cantar Tom Jobim. E muitos também sempre haverão de homenagear a Bossa Nova. Poucos, pouquíssimo, entretanto, fizeram, fazem ou farão tais reverências com sinceridade da alma. E Rosa Passos conseguiu fazer, sobretudo, um disco tributo e também comemorar o movimento musical que mais projetou internacionalmente o Brasil de uma maneira simplesmente emocionante. Eterna. É certo que estivesse ela ao violão, harmonias e divisões ritmicas originais seriam devidamente quebradas ou acrescidas ou subtraídas em nome de seu estilo peculiar de instrumentista. Porém, o estofo sonoro do disco, mesmo pendendo para o convencional mas com competência, não impediu a intérprete Rosa Passos imprimir sua forte personalidade artística.
E tudo começa com ‘‘Samba de Uma Nota Só’’ em que ela atrasa e/ou adianta frases melódicas para reconstruir um dos clássicos de Jobim. Esse é só um exemplo para ilustrar a cumplicidade de músicos e intérpretes. Sem maiores firulas, sem grandes repetições de refrões, Rosa e Cia se mostram claros, diretos, objetivos sem deixar a linha melódica de mãos dadas com estilo cool. Arranjos hábeis (a sombra jazzística se espalha em quase todo o disco) e a brejeirice e serenidade vocal de Rosa fazem maravilhas que certamente distinguem esse disco-tributo dos demais.
Como intérprete, ou melhor, como estilista, Rosa deixou um pouco de lado os maneirismos vocais jazzísticos. Em compensação, pôs o coração na garganta - algo que raros intérpretes da Bossa Nova faziam e fazem - e se entregou por completo. ‘‘Insensatez’’ é o que de mais pródigo se pode encontrar no disco. É Rosa arrepiando juntamente com o piano delicado de Cristóvão.
‘‘Meditação’’ é outra faixa que se deve ouvir com atenção, principalmente pela costura bem feita do sax de Idriss Boudrioua. O que dizer de ‘‘Inútil Paisagem’’? Algo só comparável à extraordinária interpretação, de 69, feita por Ella Fittzgerald, que vertida, recebeu o nome de ‘‘Useless Landscape’’. O negócio é o seguinte: tudo é muito bom, tudo muito emocionante, muito sofisticado, assombrosamente clássico. É que um mestre sendo cantado por uma mestra só poderia deixar todo o restante do corpo docente da Bossa Nova orgulhosamente bem representados.
(A.M.J.)

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