Uma infância sem ursinhos de pelúcia
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de julho de 1997
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
A infância é a fase mais alegre da vida. Este ditado popular carregado de boas intenções omite um outro lado da infância - o lado da miséria, onde a fome, dificuldades e doenças podem subtrair a alegria. O menino Frank, personagem do livro As Cinzas de Ângela, oferece o outra versão deste ditado: Quando recordo minha infância, fico imaginando como foi possível eu ter sobrevivido. Foi, é claro, uma infância miserável: uma infância feliz não conta muito. Pior que uma infância miserável comum é a infância miserável irlandesa e pior ainda é a infância miserável católica irlandesa.
Além destas primeiras linhas de seu relato, Frank acrescenta um pouco mais: Muita gente por aí se gaba e chora sobre os sofrimentos dos primeiros anos, mas nada se compara à versão irlandesa: a pobreza; o pai bêbado, desempregado e loquaz; a mãe devota e arrasada, lamentando-se em frente à lareira; padres presunçosos; mestres tirânicos; os ingleses e as coisas terríveis que fizeram conosco durante oitocentos longos anos.
As Cinzas de Ângela, lançado pela Editora Objetiva, obra do norte-americano Frank McCourt, narra a vida de Frank, um garoto que nasceu na América, filho de pais irlandeses que, aos três anos de idade, parte com a família para a Irlanda numa tentativa de fugir da miséria. Lá encontra mais miséria.
Narrado por Frank, pela ótica infantil, a história seduz pela sinceridade coberta de realismo. À primeira vista parece uma história ficcional que conquista o leitor de modo definitivo, mas não se trata de ficção. Trata-se das memórias de infância de Frank McCourt.
Contando suas memória com se fosse um romance ficcional, escrevendo como um menino percebe o mundo a sua volta, miséria sobre miséria, o escritor desenvolve um estilo memorialístico não muito comum. Consegue preservar a linguagem infantil e os detalhes que apenas os olhos de uma criança é capaz de focalizar.
Frank McCourt nasceu em 1930, em Nova York. Foi para a Irlanda com três anos de idade, passando por Dublin e fixando-se em Limerick. Aos 13 anos de idade conseguiu seu primeiro emprego como carregador de carvão, depois como mensageiro do correio. Aos 19 anos voltou para os Estados Unidos, onde ingressou no exército, trabalhou no cais e armazéns portuários. Nesta época começou a frequentar a Universidade de Nova York à noite, cursando Administração.
Começou a carreira e professor em 1957, dando aula em vários colégios. Estudando sempre à noite, concluiu mestrado em Administração e partiu para Dublin para um doutorado em literatura, que acabou desistindo. No ano passado, aos 66 anos de idade, Frank McCourt publicou As Cinzas de Ângela, primeiro e único livro. A obra fez sucesso meteórico nos Estados Unidos. Está há mais de 40 semanas na lista dos livros mais vendido do jornal The New York Times e ganhou o prêmio Pulitzer de Biografia de 1996.
Além de ser um uma história muito bem contada, o escritor acrescentou um ingrediente infalível para o sucesso: uma sutil apologia aos Estados Unidos, um grande país repleto de oportunidades. Felizmente como um detalhe que não compromete a obra como um todo.
Lambendo o PacíficoO relato de Frank McCourt é um retrato da miséria. A família sempre morando em quartos frios e baratos. O pai sempre desempregado torrando o pequeno dinheiro do seguro desemprego em bebida. Quando empregado, o salário não chegando em casa, ficando nos bares.
A mãe parindo um filho atrás do outro, sem nada para alimentá-los a não ser água com açúcar. Todos chorando de fome, usando a mesma roupa durante semanas, e morrendo doentes um após outro. A pouca comida era conseguida em entidades filantrópicas ou através da mendicância.
As situações narradas por Frank são o limite. Com fome, encontra no chão do quarto uma folha de jornal em que foi embrulhado um peixe frito. Este é seu alimento: Diz que não há comida em casa, nem uma migalha de pão e, quando ele dorme, pego o papel seboso do chão. Lambo a primeira página que tem anúncios de filmes e danças na cidade. Lambo as manchetes. Lambo a grande ofensiva de Patton e Montgomery na França e na Alemanha.
Lambo a guerra no Pacífico. Lambo os obituários e os poemas de luto, as páginas de esporte, os preços do mercado de ovo, manteiga e bacon. Chupo o papel até não achar um sinal de gordura. E me pergunto o que vou fazer amanhã.
O frio e a umidade de Limerick castigam impiedosamente a família de Frank. Na ausência do pai, sem condições de comprar carvão para ferver um pouco de água, os mãe e filhos começam colocar no fogão as tábuas que dividem quarto e sala. Despejados pela falta de pagamento, são acolhidos a contra gosto por uma tia. Tia tão pobre quanto eles e muito violenta. Nesta situação, o garoto procura uma solução: Quero me livrar dos seus tormentos e sei apenas um jeito, me fazer ficar doente para ir ao hospital. Levanto no meio da noite e vou para o quintal. Finjo que vou ao sanitário. Fico parado no ar gelado e espero pegar uma pneumonia ou tuberculose galopante, assim vou para o hospital com lençóis limpinhos e brancos, comida gostosa e livros trazidos por moças de vestidos azuis. Fico no quintal um tempão, descalço e só de camisa, olhando para a lua que parece um galeão fantasma navegando nas nuvens tumultuosas e volto para a cama tremendo, esperando acordar de manhã com uma tosse horrível e vermelho até as orelhas.
Além de retratar a cultura irlandesa, Frank mostra como a religiosidade e política não existem sem guerra. O conflito entre católicos e protestantes, o conflito entre ingleses e irlandeses, são cotidianos. Na ótica de um menino as coisas aparecem da seguinte forma: O mestre diz que é uma coisa gloriosa morrer pela fé e papai diz que é uma coisa gloriosa morrer pela Irlanda e eu me pergunto se existe alguém no mundo que nos quer vivos. Meus irmãos estão mortos e minha irmã está morta e quero saber se eles morreram pela Irlanda ou pela fé. Papai diz que eles eram muito pequenos para morrer por alguma coisa. Mamãe diz que foi a doença e a fome e porque meu pai nunca tem emprego.
DentaduraMesmo relatando miséria sobre miséria, Frank McCourt não deixa de lado o enfoque lúdico que as crianças são capazes de efetuar mesmo com a barriga vazia. Brincar com palitos de fósforos usados, brincar de fantasma com lençóis sujos e rasgados. Apesar de todas a dificuldade e dores, a amargura não tem residência no coração das crianças. E isso As Cinzas de Ângela consegue manter como exercício narrativo.
Neste ponto está sua grande beleza. Um belo exemplo, relatado com humor, está no episódio em que pai e mãe, com todos os dentes podres, conseguem a doação de dentaduras por entidades de caridade. As crianças ficam fascinadas com aquele evento: dentadura depositadas durante a noite em canecas cheias de água. Num belo dia, repletos de curiosidade, elas acordam de madrugada para experimentar as dentaduras numa brincadeira marota.
A menor delas, enfia uma dentadura na boca e sorri alucinada. Depois de alguns minutos, não conseguiu mais retirá-la, com os lábios quase partindo. Resultado: os pais tiveram que levar o garoto ao hospital para a extração da dentadura. A obra compreende a vida de Frank dos 3 aos 19 anos de idade, até 1948. Da primeira infância à adolescência, todas as etapas estão presente de maneira cronológica. Os sentimentos de um menino se transformando nos sentimentos de um rapaz, etapa por etapa, são devidamente marcados no decorrer das páginas.
As Cinzas de Ângela de Frank McCourt, Editora Objetiva, Tradução de Lidia Cavalcante-Luther, 370 página. R$ 29,80. Livraria Rosa do Povo.


