O filme é uma história de amadurecimento cativante, entrelaçada com a agonia final do regime nazista e observada sob a perspectiva de uma criança prestes a entrar na adolescência, e pode ser visto no Ouro Verde de hoje (3) à quarta-feira (5), com sessões às 16 e 19h30.

Com sua estreia mundial na mostra paralela “Cannes Première” do festival francês de 2025, “Uma Infância Alemã/Amrum” marca outro capítulo sólido na filmografia de Fatih Akin, alemão de ascendência turca vencedor do Urso de Ouro em Berlim 2004.

Aqui, o cineasta nascido em Hamburgo assina direção e roteiro (este em parceria com o veterano diretor e escritor Hark Bohm) , conduzindo um drama de amadurecimento profundamente pessoal e de grande ressonância histórica. Baseado nas experiências de infância do próprio Bohm, o filme se desenrola em Amrum, uma das Ilhas Frísias alemãs no Mar do Norte – hoje destino turístico mas que, durante a Segunda Guerra Mundial, foi local de refúgio algo afastado do centro do conflito.

Neste recanto isolado e varrido pelos ventos que dá o título original ao filme, o adolescente Nanning, de 12 anos (interpretado de forma magnética pelo estreante Jasper Billerbeck), transita pela beleza agreste do ambiente ao seu redor com uma determinação muito acima de sua idade. Ele caça focas em águas revoltas, pesca sob o luar e trabalha a terra para ajudar sua mãe, a nazista convicta Hille (Laura Tonke), a sustentar a família enquanto o pai está no front e a guerra desmorona ao redor deles.

Apesar da austeridade, a vida na ilha preserva uma aura de inocência e até mesmo de esplendor. No entanto, à medida que a vitória dos Aliados se aproxima, estes protagonistas pressentem que nada voltará a ser como antes.

SOBREVIVÊNCIA

Billerbeck confere a Nanning a combinação ideal de candura, obstinação e vitalidade, capturando a gama emocional genuína de um garoto lançado em um mundo marcado pela sobrevivência, pela ambiguidade moral e pela traição. Tonke é igualmente cativante, entregando uma interpretação cheia de nuances da mãe que luta para lidar com a perda e o desespero. O elenco de apoio acrescenta profundidade e complexidade à trama. O veterano ator alemão Lars Jessen, por exemplo, em um papel menor porém essencial, é alguém arrepiante na pele do avô Arjan, um nazista leal até o fim, simbolizando a persistência da ideologia muito depois da derrota.

Akin e Bohm criaram um roteiro rico em tensão dramática: o colapso da Alemanha nazista, a promessa incerta de liberdade no pós-guerra e as dores do amadurecimento de alguém dividido entre essas duas realidades. Nesse microcosmo, “Amrum” explora não apenas a perda da inocência, mas também a redefinição da moralidade em tempos de colapso. É uma história de sobrevivência, de encarar verdades desconfortáveis ​​e de crescer cercado pelo silêncio e pela cumplicidade.

'Uma Infancia Alemã' é um história de sobrevivência num filme com um visual arrebatador
'Uma Infancia Alemã' é um história de sobrevivência num filme com um visual arrebatador | Foto: Divulgação

É uma história de guerra e ideologias, mas essencialmente um relato de amadurecimento, algo que Akin, cineata vibrante e impetuoso, conduz com notável serenidade e um toque delicado. Ele confere essa mesma sensibilidade a seu protagonista, um menino sério, tenaz e inteligente, que processa silenciosamente suas dúvidas e decepções (ele só veste o uniforme da Juventude Hitlerista para visitar seu tio nazista). O jovem ator, Jasper Billerbeck, não precisou de experiência cinematográfica prévia para transmitir com clareza toda a profundidade do mundo interior do personagem. Ele não é apenas os olhos da história; é sua alma e seu sorriso – o único que oferece à câmera ao longo do filme.

Em suma, o filme de Akin é comovente e visualmente arrebatador. Pode não oferecer respostas fáceis, mas não precisa delas. Sua força reside na honestidade, no olhar inabalável e na maneira poética como captura o espaço frágil entre juventude e ideologia, natureza e violência, memória e história.

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