Se você brigou com sua cara metade e está curtindo a maior fossa, ou se anda solitário pelos cantos, tem duas opções: ou espera o coração melhorar antes de ouvir esse CD, ou aumenta o volume e afoga nele de vez as mágoas. Dolores é uma coletânea dos maiores sucessos de Dolores Duran, interpretados por um grande elenco, para homenagear esta misteriosa musa da canção.
  É o primeiro tributo coletivo dedicado a ela, e o mais completo já feito até agora. O produtor e pesquisador Thiago Marques Luiz selecionou 21 músicas e artistas diferentes: desde nomes da bossa nova, como Claudette, até do pop-rock, como Moska. Wanderléa, por exemplo, tinha o sonho de um dia gravar uma música de Dolores. Dóris Monteiro foi lembrada por ter sido a primeira a gravar Dolores, em 1955, Se é por falta de Adeus. ‘‘A intenção é mostrar a atemporalidade da música de Dolores Duran. Ela foi a primeira compositora popular de produção nacional. Sua música representa um momento de boemia intensa e criativa e um estilo que nunca será esquecido ou ficará ultrapassado porque as suas músicas tratam de amor de uma maneira delicada, mesmo que às vezes exagerada ou dolorida demais’’, diz Thiago.
  Dolores Duran era o pseudônimo de Adiléa da Silva Rocha, que nasceu no Rio de Janeiro em junho de 1930. Começou a cantar ainda criança e tornou-se profissional ainda na adolescência pois, com a morte do pai, passou a sustentar a família. Os que conviveram com ela dizem que Dolores tinha uma enorme alegria de viver, apesar do casamento fracassado, de não ter tido filhos e de um coração frágil.
  Não foi com a alegria, no entanto, que Dolores conheceu o sucesso. A tônica de todas as suas canções é a tristeza, o amor perdido, a solidão: ‘‘Se eu soubesse/Naquele dia o que sei agora/Eu não seria este ser que chora/Eu não teria perdido voc꒒, diz um trecho da conhecida Castigo. Em Por Causa de Você a dor fica ainda mais pungente: ‘‘Ah, você está vendo só/Do jeito que eu fiquei e que tudo ficou/Uma tristeza tão grande/Nas coisas mais simples que você tocou’’.
  A maior parte das canções tem apenas um piano, ou um violão, criando uma atmosfera bem intimista. O diferencial do CD é justamente a interpretação. Destaque para Jane Duboc, que lava a alma em Canção da Tristeza (preste atenção no solo de baixo da introdução), Leila Pinheiro e João Carlos Assis Brasil, que abrem o CD com A Noite do Meu Bem. Tem ainda Fafá de Belém, Fagner, Vânia Bastos e Cida Moreira, que canta justamente a única música que não é de Dolores, Canção da Volta, composta por Ismael Neto e Antonio Maria. Foi o primeiro sucesso de Dolores, em 1954.
  Para quem consegue deixar a emoção de lado, as músicas de Dolores Duran são também um retrato do universo noturno dos anos 50, do samba-canção, do surgimento da bossa nova, dos bares e das boates que fizeram da noite carioca um convite ao prazer.

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