Uma história que vale ser contada
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de outubro de 1998
Leandro Calixto Cult Press 
A cantora, compositora e maestrina Chiquinha Gonzaga chocou a sociedade carioca no século passado. Considerada uma das pioneiras da emancipação feminina, a autora da antológica marcha do Carnaval O Abre Alas, além de quebrar tabus, fez história na Música Popular Brasileira. Por conta da ousadia de lutar numa sociedade dominada por homens, no entanto, Chiquinha pagou um preço caro: o esquecimento da família. Com o objetivo de resgatar as obras da cantora, que viveu de 1847 a 1935, a escritora Edinha Diniz lançou a biografia Chiquinha Gonzaga: Uma História de Vida, (352 páginas/R$ 22), lançada pela editora Rosa dos Ventos.
O trabalho de pesquisa de Edinha Diniz demorou 20 anos para ser concluído. Ela não se conteve com outras duas biografias lançadas anteriormente - em 1939 e 1971. Por isso, se empenhou em dar uma nova versão sobre a vida de Chiquinha. O livro é divido em duas etapas: utilizando de uma narrativa detalhista, na primeira parte a autora relata a infância de Chiquinha no Rio de Janeiro, depois mostra os primeiros passos na arte até chegar a velhice. Na segunda parte do livro, Edinha reserva capítulos apresentando catálogos de músicas, discografia e peças teatrais da maestrina.
Chiquinha Gonzaga realmente nasceu para viver no mundo artístico. Nos primeiros anos de vida, a autora do livro registra que Chiquinha já demonstrava talento para música. Teve aulas de piano e começava a compor já na década de 50 do Século XIX. A vida conjugal também foi iniciada precocemente. Aos 16 anos, Chiquinha casou-se. Mas o casamento não impedia que Chiquinha continuasse militando na vida artística. Já o marido não aceitava a opção de vida de Chiquinha.
No livro, a autora lembra que naquela época as mulheres não podiam sair de casa sem a companhia do marido. Quem ousasse era considerada uma vadia. Chiquinha não se importava com a repercussão. Continuou mantendo contato com toda classe intelectual e frequentando a noite carioca. De personalidade forte, Chiquinha abandonou o marido depois de ter três filhos. A sua decisão provocou uma celeuma em quase toda família. A maioria cortou relações com Chiquinha. Não vivo sem a harmonia da música, justificava a cantora.
A separação de Chiquinha caiu como uma bomba na sociedade carioca. Ninguém entendia como uma moça criada por uma família conservadora tinha a audácia de seguir seu destino sem a influência de um marido. A escritora Edinha Diniz conta que, depois disso, Chiquinha teve vários relacionamentos até se casar pela segunda vez. Pelo mesmo motivo, a cantora separou-se novamente.
Desde então, a maestrina começou a fazer sucesso não só como cantora e compositora mas também como autora de peças teatrais. Paralelamente à carreira artística, Chiquinha também se engajou em causas sociais. Ela participou de vários movimentos a favor da libertação dos escravos.
A marcha O Abre Alas, uma das canções mais conhecidas do Carnaval brasileiro, foi composta no início do Século XX. Neste período, surgiam os primeiros movimentos carnavalescos no Brasil. E Chiquinha participava. Ela já havia conseguido uma estabilidade financeira. Só faltava o carinho da família. O único que se aproximava de Chiquinha era um irmão diplomata. Foi nestes encontros que Chiquinha resolveu passar algumas temporadas fora do Brasil. Portugal foi o país que ela escolheu como seu refúgio.
Ao voltar para o Brasil, Chiquinha já se encontrava na terceira idade. A autora registra os últimos dias de agonia da maestrina. A cantora morreu aos 87 anos, sem maridos e filhos. Antes de morrer, deixou uma carta para os filhos, que foi recuperada pela autora do livro. Chiquinha deixou uma mensagem de arrependimento por não ter acompanhado e participado do crescimento e da educação deles.
Como a fotografia só chegou ao Brasil no final do século XIX, a autora não teve recursos para registrar o início da vida de Chiquinha com mais fotografias. Mas Edinha Diniz em breve vai ter a oportunidade de mostrar mais sobre a vida da iconoclasta compositora de O Abre Alas. Em janeiro de 1999, estréia Chiquinha Gonzaga, minissérie produzida pela Globo que vai contar com a consultoria da escritora.


