A cantora, compositora e maestrina Chiquinha Gonzaga chocou a sociedade carioca no século passado. Considerada uma das pioneiras da emancipação feminina, a autora da antológica marcha do Carnaval ‘‘O Abre Alas’’, além de quebrar tabus, fez história na Música Popular Brasileira. Por conta da ousadia de lutar numa sociedade dominada por homens, no entanto, Chiquinha pagou um preço caro: o esquecimento da família. Com o objetivo de resgatar as obras da cantora, que viveu de 1847 a 1935, a escritora Edinha Diniz lançou a biografia ‘‘Chiquinha Gonzaga: Uma História de Vida’’, (352 páginas/R$ 22), lançada pela editora Rosa dos Ventos.
O trabalho de pesquisa de Edinha Diniz demorou 20 anos para ser concluído. Ela não se conteve com outras duas biografias lançadas anteriormente - em 1939 e 1971. Por isso, se empenhou em dar uma nova versão sobre a vida de Chiquinha. O livro é divido em duas etapas: utilizando de uma narrativa detalhista, na primeira parte a autora relata a infância de Chiquinha no Rio de Janeiro, depois mostra os primeiros passos na arte até chegar a velhice. Na segunda parte do livro, Edinha reserva capítulos apresentando catálogos de músicas, discografia e peças teatrais da maestrina.
Chiquinha Gonzaga realmente nasceu para viver no mundo artístico. Nos primeiros anos de vida, a autora do livro registra que Chiquinha já demonstrava talento para música. Teve aulas de piano e começava a compor já na década de 50 do Século XIX. A vida conjugal também foi iniciada precocemente. Aos 16 anos, Chiquinha casou-se. Mas o casamento não impedia que Chiquinha continuasse militando na vida artística. Já o marido não aceitava a opção de vida de Chiquinha.
No livro, a autora lembra que naquela época as mulheres não podiam sair de casa sem a companhia do marido. Quem ousasse era considerada uma vadia. Chiquinha não se importava com a repercussão. Continuou mantendo contato com toda classe intelectual e frequentando a noite carioca. De personalidade forte, Chiquinha abandonou o marido depois de ter três filhos. A sua decisão provocou uma celeuma em quase toda família. A maioria cortou relações com Chiquinha. ‘‘Não vivo sem a harmonia da música’’, justificava a cantora.
A separação de Chiquinha caiu como uma bomba na sociedade carioca. Ninguém entendia como uma moça criada por uma família conservadora tinha a audácia de seguir seu destino sem a influência de um marido. A escritora Edinha Diniz conta que, depois disso, Chiquinha teve vários relacionamentos até se casar pela segunda vez. Pelo mesmo motivo, a cantora separou-se novamente.
Desde então, a maestrina começou a fazer sucesso não só como cantora e compositora mas também como autora de peças teatrais. Paralelamente à carreira artística, Chiquinha também se engajou em causas sociais. Ela participou de vários movimentos a favor da libertação dos escravos.
A marcha ‘‘O Abre Alas’’, uma das canções mais conhecidas do Carnaval brasileiro, foi composta no início do Século XX. Neste período, surgiam os primeiros movimentos carnavalescos no Brasil. E Chiquinha participava. Ela já havia conseguido uma estabilidade financeira. Só faltava o carinho da família. O único que se aproximava de Chiquinha era um irmão diplomata. Foi nestes encontros que Chiquinha resolveu passar algumas temporadas fora do Brasil. Portugal foi o país que ela escolheu como seu refúgio.
Ao voltar para o Brasil, Chiquinha já se encontrava na terceira idade. A autora registra os últimos dias de agonia da maestrina. A cantora morreu aos 87 anos, sem maridos e filhos. Antes de morrer, deixou uma carta para os filhos, que foi recuperada pela autora do livro. Chiquinha deixou uma mensagem de arrependimento por não ter acompanhado e participado do crescimento e da educação deles.
Como a fotografia só chegou ao Brasil no final do século XIX, a autora não teve recursos para registrar o início da vida de Chiquinha com mais fotografias. Mas Edinha Diniz em breve vai ter a oportunidade de mostrar mais sobre a vida da iconoclasta compositora de ‘‘O Abre Alas’’. Em janeiro de 1999, estréia ‘‘Chiquinha Gonzaga’’, minissérie produzida pela Globo que vai contar com a consultoria da escritora.

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