Durante mais de 40 anos - entre as décadas de 30 e 70 - as construções em madeira estiveram presentes na história de Londrina servindo de suporte para o desenvolvimento da cidade. Atualmente não há uma preocupação, a não ser acadêmica, em preservar a história através destas edificações.
Pouco se sabe sobre as casas de madeira, quantas ainda existem e, principalmentte, qual sua importância no desenvolvimento de Londrina. Pouco se sabe sobre a história que vai ao chão quando cada uma destas construções é demolida.
Em sua dissertação de mestrado, o professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Londrina, Antônio Carlos Zani, fez um inventário destas construções que compreende o período de 1983 a 1989. Eram 360 casas madeiras na região central.
Atualmente, segundo ele, não há números precisos de quantas ainda restam. Mas, como explica, a grande maioria foi demolida. A sentença de parte desta história de Londrina foi dada na década de 80 com o ‘‘boom’’ da construção civil, quando a cada esquina um prédio era erguido.
‘‘Pode-se dizer que pelo menos na região central 70% das casas de madeira foram demolidas nesta época’’, garante Zani. Segundo ele, foi neste período que a cidade perdeu a sua paisagem característica formada pelas edificações em madeira.
Dorico da SilvaAntônio Carlos Zani, professor de Arquitetura e Urbanismo da UEL: ‘‘Preservar as casas de madeira significa preservar a identidade de Londrina’’Esta história começa com a colonização de Londrina, no início da década de 30, pelas mãos de migrantes e imigrantes. Para se estabelecer rapidamente eles lançavam mão do material mais abundante e, consequentemente, mais barato que tinham disponível, a peroba-rosa.
Em sua dissertação de doutorado - ‘‘Arquitetura de Madeira: Reconhecimento de Uma Cultura Arquitetônica Norte-paranaense’’ - Zani, volta ao tema e explica que a arquitetura de madeira ‘‘atendia às exigências da população migrante e imigrante de construir os seus espaços destinados a habitação, trabalho, religião e lazer, com baixo custo, rapidez e alta produtividade’’.
Papel fundamental tiveram os carpinteiros que imprimiram nas construções elementos da cultura de seus países de origem. Zani destaca os carpinteiros japoneses e alemães como sendo os que mais trouxeram para suas casas em Londrina a simbologia de suas culturas.
Os carpinteiros italianos e aqueles que vieram do interior de São Paulo e de Minas Gerais, de acordo com o professor, mesclavam traços da arquitetura de São Paulo, Minas Gerais e Europa. Preservar estas edificações, portanto, significa preservar parte da história destas pessoas e da imagem de Londrina.
‘‘Dentro de sua limitação a arquitetura de madeira também trabalhava a questão da estética’’, afirma Zani. A riqueza de ornamentos, as fachadas, as varandas, porões e escadas são características destas construções principalmente, segundo o professor, entre as décadas de 40 e 60, período conhecido como ‘‘Eldorado’’ - auge da cultura cafeeira.
No período histórico anterior conhecido por ‘‘Terra da Promissão’’ as edificações de madeira eram simples, sem detalhes de riqueza. A partir da década de 60, ou período que se remete ao fim do ‘‘Eldorado’’, novamente surgem as casas de madeira mais simples.
Já na de década de 50 é criada uma lei de zonamento que proíbe a construção de casas de madeira em determinada região de Londrina. ‘‘Alegam, na época, que a proibição se dá por motivo de segurança, já que as casas de madeira eram de fácil combustão’’, afirma ele. Mas na verdade, conforme o raciocínio de Zani, não queriam associar a imagem de Londrina às casas de madeira por acreditarem que não condiziam com a imagem de uma cidade em seu auge de crescimento.
Na tentativa de passar a imagem de progresso e opulência sacrificou-se parte da história da cidade. ‘‘Preservar as casas de madeira significa preservar a identidade de Londrina. É isto que me preocupa’’, diz.
Uma forma de preservar ao menos a tipologia - o sistema construtivo da casa de madeira - é desmontá-la e reconstruí-la em outro lugar. ‘‘Não é o ideal, mas é melhor do que demolir a casa e usar sua madeira para caixaria’’, complementa.
A preservação da memória e da identidade de Londrina, na avaliação de Zani, depende de uma iniciativa privada, pública e da própria população no sentido de reconhecer o valor destas construções para querer preservá-las. ‘‘Hoje, em Londrina, considera-se patrimônio histórico apenas as construções modernas. Mas existe também o patrimônio da arquitetura de madeira’’, conclui.

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