Uma história engordurada
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de agosto de 1998
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
ReproduçãoEm O Furgão, Roddy Doyle (detalhe) trata de bebedeiras, brigas, arrotos, partidas de futebol e outros assuntos masculinosNarrar o universo cotidiano masculino tornou-se algo raro nos últimos tempos. Facilmente confundido sob rótulos machistas esta temática repousa em banho-maria sem razões convincentes. Em O Furgão (The Van) o escritor irlandês Roddy Doyle consegue tratar deste universo com sensibilidade enfocando a relação cotidiana de amizade entre os homens - sem deixar de lado, é claro, os palavrões, bebedeiras, brigas, arrotos, partidas de futebol e outras coisas do ramo.
Lançado pela Editora Estação Liberdade, O Furgão é a segunda obra de Roddy Doyle publicada no Brasil. Paddy Clarke Ha Ha Ha, romance que ganhou o Booker Prize de 1993 foi colocado nas livrarias pela Estação Liberdade em 1995. Nascido em Dublin em 1958, Doyle é cultuado como uma das grandes revelações da literatura irlandesa da última década. Três de seus romances já ganharam versões cinematográficas, The Commitments (Loucos pela Fama) foi filmado por Alan Parker , The Snapper (A Grande Família) e The Van (O Furgão) foram transformados em filme por Stephen Frears.
A história de O Furgão está centrada na amizade de Jimmy e Bimbo, dois pais de família do subúrbio de Dublin que dividem o gosto pela cerveja, futebol, e conversa fiada. Desempregado, Jimmy passa os dias procurando alguma ocupação. Padeiro, Bimbo, perde o emprego onde trabalha desde a infância. O fato dos dois estarem sem trabalho favorece o aprofundamento da amizade.
Bimbo resolve comprar um furgão abandonado e usá-lo para montar uma barraca para venda de hambúrger e batata frita. Chama Jimmy para trabalhar com ele, como sócio. Depois de reformarem o furgão saem pelas ruasvendendo lanches e batatas fritas feitos na hora. Como ambos nunca trabalharam no ramo, atravessam vários problemas e trapalhadas. Sendo pequeno, sem ventilação, sem água, sem motor, o furgão se torna uma verdadeira banheira de gordura. Apesar de tudo o dinheiro vai entrando e vivem momentos de felicidades até as brigas e desavenças começarem.
Com o tempo toda a gordura acumulada no furgão, a gordura acumulada nas relações humanas, tornam-se insuportáveis. Entre bate-bocas, palavrões e socos no estômago, Bimbo e Jimmy resolvem preservar a amizade e mandar o motivo das desavenças, o trabalho, para o inferno. Em sua narrativa, tanto em O Furgão e Paddy Clarker Ha Ha Ha Roddy Doyle trabalha com a linguagem oral. Oitenta por cento dos romances são constituídos de diálogos. Frases curtas, rápidas e desprovidas de teses filosóficas. O escritor parece um taquígrafo que entra na casa do homem comum para reproduzir as ações mais cotidianas e não a densidade de elementos da franja tricotada do pano de prato da cozinha. Fazendo do cotidiano seu foco de atenção, revela sua comicidade e sutilezas existenciais. Os personagens de Doyle sentem alegrias e tristezas, cometem erros e acertos, xingam e beijam, sentem felicidade e infelicidade. São reais. Passam pela vida tentando entender coisas próximas, sentimentos ao alcance das mãos.


