Uma história de muitos personagens
Não foram apenas as salas de cinema que deixaram sua marca na história da cidade. Seus personagens também devem ter lugar garantido nesse enredo. Afinal, o que seria do cinema sem o projecionista. Aquele anônimo que fica ''escondido'' atrás do projetor e que dá início às sessões? Nesse contexto, Pedro de Souza, o Pedro Bagunça, não é apenas mais um na história de Londrina. É bem possível que ele seja a pessoa que mais filmes ''passou'' na cidade, pois operou o projetor no Cine Municipal, no Cine Londrina e inaugurou o Ouro Verde em 1952.
Nos áureos anos do cinema em Londrina, Pedro Bagunça precisou morar com a família no porão do Cine Teatro Municipal. Mas se engana quem pensa que assim via os filhos e enjoava da esposa. Nos fins de semana, quando as sessões começavam às 10 da manhã e seguiam até as 10 da noite, mal saía da cabine.
Hoje, aos 86 anos, o projetor de sua memória não se ilumina mais com tanta intensidade e ele está mais sossegado vivendo no Asilo São Vicente de Paulo. Mas sua profissão ainda é mantida, e muito bem. Talvez o novo Pedro Bagunça seja André Fernandes Oliveira, de 26, um dos projecionistas dos Cines Catuaí.
Na profissão há sete anos, teve seu debute na cabine do Vila Rica, cinema que para ele deixa muita saudade. ''Eu fiz muito alarde quando decidiram fechar o Vila Rica, pois não queria isso de jeito nenhum. Aquilo lá marcou a minha infância'', afirma o projecionista. ''Até hoje me dá um aperto quando imagino que está tudo fechado''.
Iniciado no cinema com o filme ''De Volta para o Futuro'', chegou a assistir quatro sessões seguidas de ''O Rei Leão'' no Vila Rica, numa época em que era só não sair da sala do cinema para ver o filme novamente. ''Quando eu era criança, conseguir dinheiro pra ir ao cinema era uma batallha. Mas no fim da sessão parecia que tinha valido a pena'', lembra André Oliveira.
Para ele, a magia da sala escura não se limita aos filmes de arte, pois embora frequente regularmente o Cine Com-Tour UEL, o projecionista não esconde seu encantamento por séries como Star Wars, o Senhor dos Anéis e Harry Potter. ''Sou frequentador do Com-Tour, mas também já estou na expectativa para o quinto capítulo de Harry Potter, que estréia mês que vem'', destaca. ''Gosto de colocar a trilha do filme antes da sessão. Penso que esse é um trabalho de um cinéfilo para outros vários cinéfilos''.
Mas será que ele assiste aos lançamentos da cabine? ''Não. É quente e o som não é nítido. Geralmente assisto ao filme sozinho, antes de entrar em cartaz. É uma das vantagens da profissão'', afirma André Oliveira, causando inveja a toda uma legião de cinéfilos. ''Mas talvez o mais prazeroso da profissão esteja em ver o comportamento de uma criança que vai pela primeira vez ao cinema. Ali você percebe porque aquela tela, em todo o seu esplendor, é única e inesquecível''.(Colaborou com a pesquisa para esta reportagem a jornalista Carina Dias de Freitas)





