Uma história de dores
Uma das características do cinema independente dos EUA é se debruçar sobre os verdadeiros conflitos sociais. A partir deste olhar ''indie'' surgem volta e meia filmes que enaltecem o discurso cinematográfico com suas propostas criativas.
Nick Cassavetes, filho do lendário John Cassavetes, tem largo registro como ator e também uma curta mas contundente experiência como roteirista e diretor. Com este ''Uma Prova de Amor'', em estreia nacional a partir de hoje, ele constrói um relato de dimensões maiores no qual o núcleo é a indagação pela existência e a finitude da vida.
Kate é uma jovem com leucemia detectada desde os três anos. Seus pais decidem ter outra filha de proveta. Desde o nascimento, a segunda, Anna, deu tudo o que podia para a irmã mais velha: células do cordão umbilical, sangue, medula óssea. Já adolescente, deverá doar um rim para Kate, em processo de saúde deteriorado e irreversível. É quando Anna se rebela, contrata um advogado e briga pelo direito de dispor de seu próprio corpo.
O conflito entre Anna e seus pais tensiona a família e expõe a intimidade de seus integrantes. Este conflito básico poderia despertar as piores reações no espectador sarcástico, caso não estivesse sustentado por um roteiro bem razoável, uma direção correta e um elenco capaz de convencer a qualquer plateia. As irmãs são vividas com insuspeitada bravura por Sofia Vassilieva e Abigail Breslin, que cresceu muito bem como atriz desde ''Pequena Miss Sunshine''. E Cameron Diaz cumpre com surpreendente capacidade seu papel de mãe desesperada.
Completam a cena um impagável Alec Baldwin como o advogado mediático, sensibilizado pelo conflito de Anna. E a sempre eficiente Joan Cusack, como a juíza que deverá decidir o conflito legal. Muito diferente de seu pai iconoclasta, o diretor Cassavetes faz uma aposta clássica e convencional, e acaba vencendo mesmo cedendo aqui e ali à insistência de certos clichês lacrimogêneos deste tipo de melodrama. Não é um filme confortável para se assistir, mas respeitoso e valente na hora de encarar a doença e suas consequências familiares. Pena que a trama não desenvolva com mais profundidade e rigor temas relevantes relacionados à ética, uma vez que assuntos como este de ''Uma Prova de Amor'' deverão estar cada vez mais na ordem do dia. (C.E.L.J.)





