Uma história de boca cheia
O homem pré-histórico sobreviveu por muito tempo alimentando-se de frutas, folhas e grão. Em algum momento, por volta de 1,5 bilhão de anos atrás, diante da escassez de alimentos, tornou-se ladrão de carcaças e posteriormente caçador.
Neste sentido, os homens sempre foram onívoros, sempre comeram qualquer coisa - dependendo do contexto em que estão inseridos bem como de valores culturais. Entre ladrão de carcaças a devorador de hambúrgueres, uma longa história existe para ser contada.
Reconstituir essa história é o desafio de História da Alimentação lançado pela Editora Estação Liberdade. Dirigida pelos historiadores Jean-Louis Flandrin e Massimo Montanari, o obra reúne uma equipe de 40 pesquisadores de várias nacionalidades apresentando os caminhos da alimentação do homem pré-histórico até os dias atuais do fast-food. Focalizando a alimentação ocidental, em especial a européia, revela uma história repleta de nuances.
Desde os primórdios, comer foi um rito coletivo. A comensalidade é considerada um marco no desenvolvimento da civilização humana. Estima-se que há apenas 500 mil anos o homem dominou o fogo. Há muito menos tempo desenvolveu a agricultura e a criação de animais. Trigo (pão), vinho e azeite foram as bases da alimentação ocidental.
O garfo, por exemplo, apareceu na Europa por volta do século 15. Antes de sua utilização em massa, as colheres, facas e copos não eram objetos individuais - eram divididos por todos os componentes da mesa. Somente na Idade Média houve a popularização de se comer utilizando cadeira e mesa. A diversidade de alimentos disponíveis cresceu em função do intercâmbio de culturas, seja através da rota das especiarias da Índia ou através do descobrimento da América.
Além do domínio na conservação de alimentos (invenção da refrigeração, dos enlatados e mais de 700 aditivos químicos) o século 20 se caracteriza pela transferência da cozinha residencial para a cozinha industrial. Nos dias de hoje se mostra cada vez mais industrializada, racionalizada e funcional com o objetivo de proporcionar, paradoxalmente, prazer.
Embora História da Alimentação seja uma obra detalhada (quase mil páginas), não consegue ser completa devido à amplidão do tema. Não há, por exemplo, uma linha sobre a origem do sanduíche, a invenção alimentar que praticamente desritualizou o ato de comer.
O sanduíche foi criado em 1872, pelo inglês John Sandwich, um inveterado jogador de cartas. Diz a lenda que Sandwich não gostava de parar partidas nem para jantar. Assim pedia que lhe trouxessem bifes dentro pães. O objetivo do pão era para que o bife não sujasse suas mãos. Deste modo assim poderia comer e jogar ao mesmo tempo. A atitude obsessiva de Sandwich, a de comer e realizar uma outra ação ao mesmo tempo, ganharia grandes dimensões nos dias atuais.
Durante todo o decorrer da história a alimentação foi uma atividade particularizada, abandonava-se toda e qualquer atividade para comer. Havia uma ritualização da alimentação. Com o advento dos alimentos pré-preparados e embalados, as refeições podem ser feitas em poucos minutos, juntamente com qualquer outra tarefa.
Nos dias de hoje, o tempo de comer não é mais isolado, não existe por si mesmo. É possível trabalhar e comer ao mesmo tempo. A refeição deixou de ser um tempo e espaço ritualizado, protegido. Em nome da rapidez da produção, comer é um detalhe que precisa ser resolvido da maneira mais rápida possível.
História da Alimentação - organizado por Jean-Louis e Massimo Montanari, Editora Estação Liberdade, 904 páginas, capa dura, R$ 65,00.ReproduçãoIluminura do Livro de Caça mostra dois detalhes da refeição sem garfosMarcos Losnak
Especial para a Folha2





