Uma história com fartas linhas
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de julho de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba Quase uma centena de espetáculos teatrais, participações em novelas, longa-metragens e comerciais. Além de uma atuação indispensável no cenário teatral de Curitiba na década de 60, que resultou na criação do extinto Teatro de Bolso. O currículo extenso da atriz curitibana Odelair Rodrigues, que acaba de completar 67 anos, agora vai virar livro. A história dos 50 anos de carreira da atriz, que se consagrou ao interpretar a personagem Mãe Dolores, na novela ''Direito de Nascer'' (1968), está sendo organizada pela Fundação Cultural de Curitiba.
A homenagem a meio século de trabalho artístico não acaba por aí. A atriz ganhou neste mês, o Espaço Cultural Odelair Rodrigues. Ainda no anonimato, o espaço um barracão na Avenida Sete de Setembro, no Centro de Curitiba só vai ser inaugurado oficialmente em setembro, com lançamento pela Brasil Telecom. A iniciativa, porém, não partiu de nenhum órgão oficial. No ano passado, três amigos Marco Zenni, Altamar César e Guilherme Pierre decidiram montar um espaço para ensaiar com a Cia Ethos de Teatro.
Até então, a companhia formada por 30 atores amadores ensaiava em um estúdio de dança. O espaço foi ficando pequeno para abrigar e colocar em prática tantas idéias da trupe. ''Foi quando encontramos o barracão, um antigo estacionamento, e decidimos unir esforços para alugá-lo'', diz Zenni. Daí para a homenagem à Odelair, foi um passo. ''A Odelair é uma pessoa maravilhosa e muito importante para o teatro'', anima-se o ator.
A multidisciplinaridade da atriz influenciou na escolha. ''Não queremos fazer do espaço só uma escola'', reforça Zenni. A idéia vai além. Os três sócios querem transformar o local, que já está aberto para ensaios, em uma espaço aglutinador de propostas, com capacidade para os grupos interessados colocá-las em prática. Além de oficinas, o Espaço Cultural Odelair Rodrigues vai ter ilha de edição, espaço para apresentações e cursos de outras áreas, como esgrima. Tudo em um barracão de 150 metros quadrados, cujo interior pode se adaptar de acordo coma necessidade da proposta.
A atriz homenageada recebeu a notícia com surpresa. ''Vieram me contar que era um espaço ''simplesinho''. Para mim não é nada simples. É maravilhoso ter um espaço com o meu nome'', desmancha-se Odelair. Ela recebeu a reportagem da Folha2 em sua casa, no Bairro Capão Raso. Não tinha muito tempo porque está em cartaz com ''Um Unicórnio no Jardim'', dirigida por Edson Bueno (de quarta a domingo, na Casa Vermelha) e tinha que se preparar para o espetáculo.
Não pensem os mais desavisados que depois de reunir um currículo tão extenso e recheado de premiações, Odelair ''cansou'' da carreira. Pelo contrário. O ano passado fez uma participação no filme ''Traste'', do cineasta Palito, este ano está em cartaz com a peça de Bueno e já está com três espetáculos confirmados para estrear no próximo ano.
Tanta energia assim, se alimenta com as próprias mudanças na estrutura do cenário teatral. ''Hoje em dia é mais fácil trabalhar. Antes a gente tinha que aprender errando. Eu aprendi a atuar no palco porque na minha época não tinha tantas escolas'', analisa. Lembra também que antigamente os atores tinham que ''colocar a mão na massa'' para tudo, já que não existia a figura do produtor. Para ver o Teatro de Bolso funcionando, por exemplo, Odelair Rodrigues e Ary Fontoura, amigos desde a adolescência, tiveram que trabalhar pesado. ''Lavamos, enceramos, reformamos para poder apresentar nossos espetáculos'', contou.
O esforço não acabava quando a peça estreava. Depois disso, recorda a atriz, os atores também tinham que batalhar a atenção do público e a venda dos ingressos acontecia de porta em porta. Se essa lida desanimava ? Odelair é convicta: ''Reuni muito mais alegrias que tristezas''. Revela ainda que o fato de ser negra nunca atrapalhou a carreira. ''Uma vez um repórter me perguntou como eu chegue até aqui, morando em Curitiba e sendo negra. Eu respondi: 'como, eu não sei, só sei que cheguei'''
Odelair nasceu em Curitiba em julho de 1935. Sua estréia nos palcos aconteceu bem cedo, quando uma professora de recreação reconheceu na menina o talento para representar. Mas profissionalmente, ela só foi subir aos palcos em 1952, pelo Corpo Cênico do Colégio Estadual do Paraná. Odelair também experimentou as luzes do cinema, em ''Lance Maior'' (Sílvio Back) e ''Entardecer das Ilusões'', fez comerciais, como o do Café Damasco, e também se destacou e novelas. Depois de ''Direito de Nascer'', de Félix Cagnet, também participou de ''Escrava Isaura'' , ''Vida Roubada'' e ''Estranha Melodia'', de Paulo Avelar.
Também integrou na tevê, o elenco de programas humorísticos ao lado de Ary Fontoura. Confessa, no entanto, a sua predileção pelo teatro. ''No teatro não tem truques nem enganação, você mostra o que sabe''. Ao longo de sua carreira recebeu inúmeros troféus por suas atuações. Em 1990 ganhou o Prêmio Bicho do Paraná, pelo conjunto do seu trabalho e há dois anos recebeu da prefeitura o título de Vulto Emérito de Curitiba.
Para quem está começando agora na carreira que pode incluir tanto brilho como mazelas, Odelair dá a dica: ''Se tiver talento, o importante é ter paciência e não desistir''.
Serviço
Espaço Cultural Odelair Rodrigues (Avenida Sete de Setembro, 2434), em Curitiba. O lançamento do livro ''Odelair Rodrigues - 50 anos de carreira'' está previsto pela Fundação Cultural de Curitiba ainda para o segundo semestre deste ano.


