Uma história arrepiante
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de abril de 2006
Diogo de Oliveira<br> TV Press 
No Rio Grande do Sul dos tempos do Império, um serial killer e sua esposa se tornaram figuras lendárias. Na próxima quinta-feira, o jornalístico Linha Direta Justiça exibe a história do casal que marcou o ano de 1864 como um dos mais sangrentos da capital gaúcha. O terceiro episódio de época do programa da Globo, intitulado Os Crimes da Rua do Arvoredo, terá como protagonistas os atores Carmo Dalla Vecchia e Natália Laje, que interpretam José Ramos e Chatarina Palse, o ex-policial autor de assassinatos em série e sua esposa. As cenas foram gravadas na cidade do Rio de Janeiro, no Colégio Sagrado Coração de Jesus, no Teatro Municipal e no Projac, centro de produções da emissora na Zona Oeste carioca. Nos bastidores da produção, o mesmo ar sombrio que certamente será um dos pontos fortes do episódio. É uma história que virou lenda no Sul. Os pais contavam para os filhos, os avós para os netos. Enfim, as crianças tinham medo do caso, que é realmente assustador!, impressiona-se Natália Laje.
Em 1864, o ex-policial catarinense José Ramos trabalhava em um açougue de Porto Alegre e era casado com uma belíssima mulher, a húngara Chatarina Palse, cuja origem e história de vida eram desconhecidas. Frios e alheios ao meio social, os dois foram presos após a polícia encontrar pedaços dos corpos esquartejados no porão da residência do casal. Para transmitir um clima de suspense às cenas e também aos atores, a direção do programa colocou durante as gravações algumas músicas do grupo inglês Radiohead, que serão trilha do episódio. Isso não é por acaso. As músicas do Radiohead foram escolhidas com a intenção de aproximar a história da realidade, por mais de época que ela seja, explica o diretor-geral do programa, Milton Abirached.
Para reconstituir o crime, os trabalhos de pesquisa da equipe do Linha Direta foram amplos. A produção buscou informações nos arquivos públicos do Rio de Janeiro e de Porto Alegre e verificou desde recibos da época e passaportes, até as autópsias dos corpos das vítimas. No período, os processos eram escritos com pena e tinteiro e não existia luz elétrica na região. A cidade era iluminada por lampiões à óleo e, dentro das casas, a população utilizava lamparinas e castiçais. No episódio, tudo foi cuidadosamente observado, para evitar furos. Apesar das diferenças entre as populações de cada região do Brasil, a herança portuguesa possibilita se chegar a um lugar-comum. Ao privilegiá-la, a margem de erro na reconstrução de períodos passados é bem menor, assegura o produtor de arte do programa, José Artur.
Caso de repercussão internacional, a histórica série de assassinatos brutais na Porto Alegre do Século XIX não será retratada pela primeira vez na tevê. No Rio Grande do Sul, a RBS retransmissora da Globo no estado já produziu um documentário sobre o caso e outro trabalho independente foi produzido. A história inspirou também os livros Cães da Província e O Maior Crime do Mundo, de Luiz Antônio De Assis Brasil e Décio Freitas, respectivamente.
Para Carmo Dalla Vecchia, o episódio do Linha Direta será mais uma brincadeira com as distintas versões da história. Neste, em especial, se discutirá se o assassino fazia ou não lingüiça com os corpos das vítimas, conforme chegou a se dizer na época. Para interpretar José Ramos, Carmo conta que inspirou-se no livro O Retrato de um Assassino, de Patrícia D. Cornwell. Esse livro me ajudou muito, pois ele revela essa pessoa extremamente fria que, depois de cometer o primeiro assassinato, passa a matar sem nenhum pudor, sintetiza o ator.


