Uma história apetitosa como bolo de suspiros
Uma história
apetitosa como
bolo de suspiros
João Batista Natali
Agência Folha
Em 39 anos, Giacomo Casanova levou para a cama 122 mulheres. Não foi tanto assim. Don Juan, em sua versão trabalhada por Da Ponte para a ópera de Mozart, fez o mesmo com cem na França, 91 na Turquia e, só na Espanha, 1.003.
Mas Casanova existiu em carne e osso, como aventureiro e memorialista. Nas cerca de 3.600 páginas de suas Memórias (Gallimard, 1958), o que fascina é a perversão como força motriz do texto.
Não a perversão como postura moral, algo de condenável ou feio. É uma dimensão psicanalítica. O prazer do aventureiro não se esgota na aventura. Esgota-se na narrativa minuciosa e elegante de como a aventura ocorreu. Mas as Memórias têm bem mais que a conquista amorosa como fio condutor. São ao mesmo tempo uma biografia e um folhetim picaresco, com momentos do mais puro e hábil suspense.
Exemplo: História de Minha Fuga das Prisões da República de Veneza. Condenado pela Inquisição por magia, libertinagem e ateísmo, ele passa 17 meses em celas de onde os prisioneiros só saíam para serem sepultados. Por extrema ousadia e astúcia, Casanova se evade na madrugada de 1º de novembro de 1757. É uma história apetitosa como um bolo coberto de suspiro. Falta apenas uma cereja em cima. Aqui está ela: o prisioneiro foragido esconde-se na casa do brigadeiro encarregado de sair ao seu encalço. Uma casa aconchegante, na qual, como se diria em linguagem do século 18, recebe os favores da mulher do oficial.
Naquele século, a aventura era com frequência um gênero enfadonho. As Mil e Uma Noites são chatíssimas. Em Casanova, no entanto, a sedução factual se desdobra pela sedução de um estilo refinado, rebuscado, cortês. Stendhal acreditava que Casanova teria lugar garantido entre os romancistas de língua francesa, na qual as Memórias foram redigidas, quando seu autor passava os 13 últimos anos de sua vida como bibliotecário de um castelo da família Waldstein.
Casanova aspirava bem mais que a condição póstuma de um sedutor. Foi filólogo, com um trabalho sobre a influência de termos franceses após a Revolução de 1789. Traduziu em versos italianos a Ilíada de Homero. Conheceu Voltaire, que aliás o considerou um hábil impostor. Se impostura ocorreu, foi porque Casanova tornou-se uma espécie de estelionatário do Iluminismo. Extorquiu dinheiro e abusou da boa fé de Mme. DUrfé, nobre francesa a quem prometeu a imortalidade e uma cirurgia, em 1762, para que mudasse de sexo.
Nas Memórias, a história é contada pela metade. DUrfé é tratada como uma protetora. Descoberta a impostura, ele é obviamente expulso do círculo de amigos que a rodeava. Mas em lugar de narrar a expulsão, o memorialista mente ao afirmar que por aqueles tempos a nobre senhora morreu.
Nem tudo, entretanto, é travestimento da verdade biográfica. Com espantosa humildade, Casanova narra em detalhes sua aventura com a única mulher que, além de rejeitá-lo, também o arruinou. Chamava-se Marianne, suíça de nascimento e cognominada La Charpillon. Aconteceu em Londres, em 1763. Para se vingar dela, ele compra um papagaio e o ensina a falar que Charpillon é uma p.... A ave é colocada numa gaiola, exposta na Bolsa de Valores. Nova cereja, desta vez sobre um bolo bastante azedo.





