Curitiba – O livro que deu origem ao filme ‘‘Bicho de Sete Cabeças’’ tem começo, meio e fim. É uma obra como tantas, com a diferença que inspirou um filme nacional– dirigido por Laiz Bodanzky e protagonizado por Rodrigo Santoro – que já ganhou mais de 50 prêmios, nacionais e internacionais. E com outra peculiaridade: fora das páginas e das telas, se tornou uma novela à parte, que está longe de acabar. Pela segunda vez desde que foi lançado pela editora Rocco, a Justiça manda retirar a obra das prateleiras. O Tribunal de Justiça do Paraná publicou a decisão no último dia 28 e o advogado que representa Austregésilo Carrano, autor do livro, tem até o dia 16 para entrar com recurso.
  O processo é confuso e se arrasta desde que o médico Alexandre Sech e a família do psiquiatra Alô Guimarães, citados no livro, entraram com ação contra Carrano e a editora pedindo que os livros fossem retirado das livrarias, alegando danos morais. No ano passado, o mesmo tribunal determinou que Carrano pagasse R$ 30 mil ao médico Alexandre Sech. Agora foi a vez da família de Alô Guimarães, morto em 1985, ser beneficiada com a decisão judicial, ainda passível de recurso.
  Na semana passada, o Tribunal de Justiça do Paraná decidiu que todas as edições do livro ‘‘Canto dos Malditos’’, que contenham menções injuriosas aos médicos sejam retiradas de circulação num prazo de 60 dias. Caso contrário, Carrano será obrigado a arcar com uma multa diária no valor de R$ 5 mil, além dos R$ 20 mil de indenização que serão pagos aos filhos de Guimarães.
  Os médidos citados atenderam Carrano quando ele foi internado no Bom Retiro, hospital de Curitiba, depois do pai do escritor ter encontrado um cigarro de maconha nas coisas dele, em meados da década de 70. Na época, Carrano tinha 17 anos. Hoje, aos 48, ele participa ativamente do processo de luta antimanicomial. Escreveu o livro ‘‘Canto dos Malditos’’, baseado na sua experiência no hospital psiquiátrico e tem outros projetos literários.
  Atualmente, o escritor sobrevive dos direitos autorais da sua principal obra, pagos pela editora Rocco a cada três meses e das palestras que ministra sobre a luta contra os manicômios. São cerca de R$ 1,2 mil por mês, ainda segundo o autor, dividido entre os seus gastos pessoais e a pensão paga aos quatro filhos, que têm entre 14 e 5 anos. Fora isso, conforme afirmou à Folha, Carrano não tem bens materiais em seu nome que possa arcar com a dívida judicial, caso os processos sejam favoráveis aos médicos.
  ‘‘O judiciário paranaense devia colocar tapete vermelho para eu passar e não me condenar. Meu trabalho é reconhecido nacional e internacionalmente’’, considera Carrano. O advogado dele, Jorge Kruger, lembra que os nomes dos médicos citados e do próprio hospital psiquiátrico foram trocados nas edições do livros que saíram posteriores a setembro de 2004. O livro ‘‘Canto dos Malditos’’, que já tem 30 edições, foi proibido entre abril de 2002 e setembro de 2004, até a editora Rocco trocar o nome dos médicos e ainda subsitituir a instituição Bom Retiro por Bom Recanto. ‘‘Como essa troca já foi feita, vamos estudar o que essa decisão judicial (atual) pede’’, argumentou o advogado.
  De acordo com ele, das decisões judiciais ainda cabem dois recursos, tanto no Supremo Tribunal Federal, como no Supremo Tribunal de Justiça que podem, ou não, anular as anteriores. O prazo de decisão pode se arrastar por, no mínimo, um ano. ‘‘Não sei dizer o prazo máximo’’, informou o advogado. O que significa que a novela acerca do livro, está longe de chegar ao fim.

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