Uma grife restaura o cinema
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2
Um filme não é somente aquele que vemos na tela, mas sobretudo aquele que permanece em nossa memória, visual, histórica, afetiva. Exatamente por isso, uma prática saudável vem se institucionalizando nos grandes festivais de cinema. Na programação paralela, as curadorias vêm mantendo um generoso espaço dedicado ao resgate da memória cinematográfica ameaçada de extinção. Sob epígrafes diversas, celebram-se os recursos materiais, os esforços, a dedicação e o carinho que pessoas e/ou entidades concentram nesta tarefa de valor imensurável. Na 56ª Mostra Internazionale dArte Cinematografica, realizada mês passado em Veneza, a seção Passato Presente foi mais um round bem-sucedido neste embate em que tempo e persistência são paradoxalmente parceiros e antagonistas.
Entre os tesouros restaurados e oferecidos estavam os novíssimos, impecáveis 115 minutos de Os Boas Vidas (I Vitelloni), antológico Fellini de 1953; uma preciosidade de seis minutos e meio, A Funeral of the Metropolitan Aimilianos of Grevena, filme realizado em 1911 na Grécia/Macedônia pelos irmãos Yanaki e Milton Manaki, pioneiros como os Lumiére; a comédia Totó e Carolina, de Mario Monicelli, tão estimada quanto mutilada por dezenas de cortes impostos em 1955 por uma censura que não admitia críticas à Igreja e à polícia; um raríssimo e não menos aclamado filme inglês da dupla Michael Powell/Emeric Pressburger, de 1946, A Matter of Life and Death, ainda hoje obra-desafio às tentativas de enquadrá-la em qualquer gênero, tal sua carga de novidade; a epopéia para garimpar os 420 minutos originais do clássico Ouro e Maldição (Greed) filmados em 1923 por Eric von Stroheim, no documentário Reconstruting Greed. E finalmente O Estrangeiro, um Visconti de 1967 que agora reincorpora centenas de frames que não constam das cópias hoje em circulação.
Veneza, cenário de permanente restauração a céu aberto, não poderia deixar de ter o privilégio de abrigar em 1999 o ponto alto desta celebração do cinema reconstruído. Fechando hors-concours o festival, Martin Scorcese apresentou sua work in progress, os primeiros 90 minutos do documentário de 3 horas por ele batizado provisoriamente de Il Dolce Cinema. É uma breve história do cinema italiano, compreendida entre 1945 e 1974, entre o Rossellini de Roma Cidade Aberta e o Novecento de Bertolucci, passando por 130 títulos eleitos pelo cineasta. Mas o projeto é mais que isso, bem mais que isso. É obra de caloroso empenho pessoal, um filme-homenagem aos mestres italianos que de uma forma ou de outra influenciaram o universo fílmico de Scorcese. Apresentado em cópia Beta Digital, Il Dolce Cinema é em parte justificado por razões afetivas: entre outros, estão os filmes que o cineasta ítalo-americano de Taxi Driver via nas tardes de sexta-feira pela televisão no início dos anos 50, nos Estados Unidos, com avós, pais, tios e irmãos .
Impossível não compartilhar da emoção que acompanha o relato de Scorcese, durante a coletiva que se seguiu à exibição da primeira metade do filme. Além de Rossellini e Antonioni, ele fala sobre os grandes que o ensinaram e influenciaram, como De Sica, Camerini, Blasetti, Visconti, Fellini. Cita planos, cenas, sequências inteiras e estabelece a ponte entre seus filmes e as influências que considera notórias, quase explícitas. Mas há uma segunda justificativa para o projeto Il Dolce Cinema, para ele uma justificativa tão importante quanto a declaração de amor de significado íntimo e público que de resto já se sabia, ainda que em outra medida. Trata-se agora, sem rodeios, de salvar o cinema. Incluir trechos de muitos filmes no documentário significa dar a eles uma chance de retomar por inteiro a antiga forma que o tempo, a incúria e a omissão foram desgastando até quase o comprometimento irrecuperável. Neste ponto, Scorcese afinal satifaz a curiosidade da mídia e chama para a conversa o estilista Giorgio Armani, a seu lado na mesa e até então sem função prática no recinto.
Ligados profissionalmente há anos - Armani assina o vestuário de diversas produções dirigidas por Scorcese nos anos 90 - os dois se tornaram muito ligados por causa desta colaboração. Com o projeto de Il Doce Cinema em gestação, o cineasta sondou o estilista, que não pensou duas vezes: boa parte do orçamento do documentário saiu dos cofres de uma das mais badaladas grifes da moda mundial. E a julgar pelo entusiasmo demonstrado pelo produtor executivo do filme, especificamente quanto à cruzada pela recuperação de imagens ameaçadas, esta participação pode ser o início de uma bela e proveitosa amizade.Martin Scorcese junta-se ao estilista Giorgio Armani para recuperar filmes ameaçados pelo tempo e pelo descaso
DivulgaçãoMartin Scorcese e Giorgio Armani têm um projeto de recuperação da memória cinematográfica ameaçada de extinçãoReproduçãoCena de Os Boas Vidas, de Fellini: um dos filmes restaurados pelo projeto de Scorcese e ArmaniReproduçãoO Estrangeiro, de Visconti, teve partes recuperadas que não constam nas cópias em circulaçãoReproduçãoEric Von Stroheim, diretor de Ouro e Maldição: um filme restaurado





