Fanny Ardant, musa do cinema francês, atriz de Truffaut, Resnais, Lelouch e Costa-Gavras, virou cineasta. Ela dirige o curta-metragem ''Chimères Absentes'' (''Sonhos Ausentes''), parte do projeto coletivo ''Then and Now'', concebido e produzido pela Art, que vai reunir 14 curtas num longa a ser lançado em 2011.

Como você entrou no projeto?


Uma noite recebi um telefonema de uma pessoa me perguntando se eu gostaria de fazer um filme sobre a tolerância religiosa. Havia apenas uma regra: deveria ter seis minutos de duração. Há dois anos esse mesmo projeto tivera por tema os direitos do homem. Por que não? Sempre tive atração pelas coisas desconhecidas. Como eu não era uma pessoa suficientemente religiosa, desviei um pouco o tema e falei dos ciganos, que não formam uma religião mas uma cultura e um modo de vida. Eles aceitaram e está aí.


O que a levou a dirigir, depois de uma experiência tão intensa como atriz?


Não foi uma decisão racional. Eu estava fazendo uma peça no teatro e tinha todas as tardes livres. Comecei a pensar e, em seguida, me pus a escrever. Eu me permiti dirigir e atuar ao mesmo tempo. Como me avisaram que não haveria dinheiro mesmo, decidi pelo menos me divertir (risos). Sempre me lembro que o cinema não é tão importante assim.


Essa sua intensidade me faz lembrar um cena em particular, uma cena inesquecível...


FANNY - Eu acho que sei qual é (faz um gesto com a mão, indicando uma queda)...


Em ''A Mulher do Lado''...


Exato. Eu tinha certeza de que era esta (rindo).


É aquele momento em que sua personagem se encontra com o de Gérard Depardieu e simplesmente desmaia de paixão...


Essa cena é como um testamento. A gente pode morrer de amor. Eu me lembro que Truffaut dizia que essa era uma história atual. Todo mundo pensa que morrer de amor é coisa de Anna Karenina, Madame Bovary, de personagem de Balzac. Não. É eterno. Pode-se morrer de amor mesmo hoje em dia.


A nouvelle vague fez 50 anos e você filmou com alguns dos diretores que fizeram parte desse movimento. Acredita que tenha sido o período mais importante do cinema francês?


O cinema é como o vinho. Há as grandes colheitas, que dependem de fatores como o sol, as condições da terra, etc. Mas não devemos nos deter apenas nos grandes períodos do cinema, assim como não podemos ficar escravos dos grandes vinhos. O cinema é como a terra e o vinho, que vão se amalgamando. Há lugar para todos e tudo alimenta tudo. As coisas mudam, mas estamos sempre contando as mesmas histórias. Desde Homero.

- Um programa com cinco dos curtas que fazem parte do projeto, inclusive o de Fanny e o da brasileira Tata Amaral, será exibido no SescTV (Canal 137 da NET), hoje, às 21 horas.

mockup