UMA GAROTA QUE FAZ E ACONTECE
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quarta-feira, 16 de maio de 2001
Nelson Sato de Londrina 
A VJ da MTV, Marina Person, passou por Londrina na última terça-feira. Veio a convite do Colégio Marista, onde mediou um debate sobre Internet e educação durante o lançamento do portal da instituição.
Minutos antes de sentar-se à mesa com os palestrantes, conversou rapidamente com a imprensa sobre a programação da MTV, comportamento da juventude, novo feminismo e o filme que está rodando sobre seu pai, o cineasta Luiz Sérgio Person.
Marina é apresentadora do programa Meninas Veneno (que é exibido às quinta-feira, às 22 horas), que estreou em março passado no Dia Internacional da Mulher com o apelo inaugural de ser o primeiro programa de debate feminino da tevê brasileira voltado exclusivamente para garotas.
O programa tem uma verve de humor. A gente pega a opinião dos meninos na rua, depois comenta e faz piada diz ela. Os assuntos abordados são os mais variados, indo de lesbianismo a dietas e cuidados com os cabelos. Ela lembra que o tema meninas que gostam de meninas obteve grande repercussão.
E foi também o que mais dificuldades impôs à produção. Não foi fácil encontrar meninas jovens para ir falar sobre sua condição. As que tiveram essa coragem, são garotas assumidas e que assumem no próprio visual suas diferenças. Tanto que ficou faltando uma menina de cabelo comprido no programa observa.
A VJ acredita que tanto Meninas Veneno quanto o quadro Elas só pensam nisso, do Fantástico da Globo, revelam uma tendência contemporânea de tratar a questão da mulher de uma maneira menos ranzinza. A época das bandeiras, do engajamento, da necessidade de se afirmar os direitos da mulher ficou para trás diz.
Não precisamos mais queimar sutiãs e falar: olha, nós somos oprimidas, coitadas de nós. É claro que, em alguns setores, a mulher ainda é vista como alguém que tem ficar em casa cuidando dos filhos, sustentada pelo marido e sem poder trabalhar fora. E essa visão tem que ser combatida sempre. Mas, no geral, muita coisa avançou. Temos nossas particularidades, não queremos ser iguais aos homens, pois a graça está justamente nessa diferença.
Para Marina, a MTV passa por uma transição bem-vinda. A emissora entrou no ar em 1990. Há dois anos, virou motivo de controvérsias na imprensa ao começar a exibir clipes de pagode em sua programação, o que segundo os críticos sufocaria o perfil pop/rock original. Para a VJ, tudo não passou de uma tempestade em copo dágua.
Na época, eram exibidos dois clipes de pagode por dia era muito. E além do mais, porque não podemos exibir clipes de pagode e exibir clipes americanos ruins, bregas e cafonas? Você vai dizer que Celine Dion é melhor do que pagode? provoca ela. Ao analisar as mudanças atuais da emissora, Marina salienta que tudo obedece à busca constante pela diversificação.
A MTV não tem uma fórmula, mesmo porque não existem fórmulas em televisão hoje em dia salienta. A própria Globo, que liderou a audiência durante décadas, está apanhando do SBT. No caso da MTV, ela é uma tevê nova e o seu público é muito mutante. A adolescente de 1995 não é o adolescente de 2001. A TV tem que acompanhar essa transformação, senão o público deixa de se identificar. Na programação, as tendências musicais estão bem amparadas. Mas fora isso, o jovem quer falar, escrever, discutir. E a MTV, antes de ser uma tevê de música, é uma tevê para o jovem.
Paralelamente ao trabalho de VJ, Marina prepara sua estréia profissional como cineasta. Está rodando um longa-metragem sobre seu pai, Luiz Sérgio Person, diretor do filme São Paulo S/A, considerado um marco do cinema nacional. O filme começou como um curta, realizado com verba do Ministério da Cultura, que premiou 40 projetos em todo o país.
Após concluir as filmagens, notou que o material reunido era suficiente para transformá-lo num longa. Durante a pesquisa, entrevistou inúmeros artistas que conviveram com seu pai, entre eles Walmor Chagas, Eva Wilma, Raul Cortêz (com quem estudou na infância), Paulo José, Antunes Filho (com quem frequentava a mesma piscina), Jean-Claude Bernadet e Glauco Laurelli (sócio-colaborador durante 20 anos de Luís Sérgio).
O filme não é uma biografia filmada. Ele fala dos filmes que meu pai fez, ou deixou de fazer, e acaba falando do Brasil. Há passagens que tratam da jovem guarda, outras da industrialização de São Paulo e do Rio explica ela. Marina está correndo atrás de investidores, amparada nas diversas leis de incentivo fiscal. Paralelamente, cuida da digitalização do material de pesquisa.
Estou envolvida nesse trabalho de recuperação, porque os filmes que meu pai atuou ou dirigiu estão em estado calamitoso de conservação. Quero recuperá-los não só para usar no filme, mas como preservação da memória cultural brasileira completa. Marina tinha 7 anos quando Luiz Sergio Person morreu num acidente de carro, em 1976.
O pai talvez seja o grande esquecido do cinema brasileiro. Estreou nas telas com a chanchada Marido Barra Limpa. Em 1965, fez São Paulo S/A, sua obra-prima. O filme é ambientado na virada dos anos 50 para os 60, durante o surto da indústria automobilística na capital paulista. O personagem central, interpretado por Walmor Chagas, é um empresário bem-sucedido no ramo de auto peças.
Apesar do êxito profissional, vive insatisfeito e angustiado. Decide abandonar tudo, mulher, filho e emprego. Depois de perambular o dia inteiro, medita sobre sua vida e comete uma transgressão: rouba um carro e foge da cidade. No dia seguinte, à beira de uma paisagem idílica, chega à conclusão de que nenhuma forma de vida alternativa pode ser-lhe oferecida. Volta à cidade,
à engrenagem que o sufoca.
Depois de São Paulo S/A, Person rodou O Caso dos Irmãos Naves, Panca de Valente e Cassy Jones, o Magnígico Sedutor. Morreu sem concretizar o projeto de adaptar para as telas o romance A Hora dos Ruminantes, de J.J.Veiga. Agora, a filha quer restituir às novas gerações todo seu legado. Além do documentário-homenagem, Marina pretende lançar uma caixa com os filmes do pai.


