Uma favorita difícil, mas não impossível
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quinta-feira, 07 de fevereiro de 2019
Carlos Eduardo Lourenço Jorge <br> Especial para Folha 2 
A sátira negra (muito negra mesmo) "A Favorita", em lançamento na cidade e desfilando suas dez (!) nominações para o Oscar do próximo dia 24, é o primeiro filme do grego "enfant terrible" Yorgos Lanthimos - vocês sabem, aquela espécie de realizador famoso, jovem (45) e precoce, fortemente não ortodoxo, inovador ou de vanguarda - que se abre ao grande público. O que não significa maiores facilitações: embora não críptico como em "Canino" (2009), "A Lagosta" (2015) e "O Sacrifício do Cervo Sagrado", ele agora trabalha um material com frequência árduo, permanecendo sempre aquele olhar irresistivelmente misantropo que é sua mais recorrente característica. Aqui ele viaja ao século XVIII para contemplar (fustigar, vale a precisão) o pouco conhecido mas convulsionado reinado de Ana Stuart, rainha da Inglaterra. Seja como for, e em parte pela presença no elenco de atrizes como Emma Stone e Rachel Weisz, "A Favorita" é seu filme mais próximo do da aceitação popular.

Qualquer suspeita previa de que dirigir um relato de época repleto de trajes e figurinos, e com uma direção de arte suntuosa diluiria a capacidade perturbadora de Lanthimos revela-se infundada, quando logo de início a personagem de Emma Stone é jogada para fora da carruagem e cai de cara num monte de fezes. Em toda sua extensão, "A Favorita" reitera o fascínio que o grego sente pelo absurdo das convenções sociais e pelos vínculos entre poder e humilhação.
"A Favorita" oferece ao espectador um palácio real habitado pela histeria, traição e paranoia, em cujos domínios desfilam passatempos doentios diversos, como brincar com os 17 coelhos que a rainha, atormentada por crises de gota (Olivia Colman, na briga pelo Oscar de melhor atriz), mantém em sua alcova para suprir a perda de seus 17 filhos (a História confirma a tragédia), ou o arremesso de laranjas contra homens nus, ou o desenfreado tiro ao pombo. Em particular, o roteiro descreve em detalhes a feroz batalha entre Sarah Churchill, duquesa de Marborough (Rachel Weisz), confidente, amiga íntima/amante, conselheira política, e uma empregada arrivista, Abigail Masham (Emma Stone), que passa a disputar e receber favores e atenções da rainha Ana da Grã-Bretanha, em meio às suas crises de depressão e incapacidade física. Três personagens ridículos e ao mesmo tempo terríveis, mas dotados de uma empatia irrefutável por conta do trio de interpretes. Especialmente Colman, capaz de ser hilária e devastadora no decorrer de uma única cena.
Volto ao tema: certeza que "A Favorita" é o filme mais convencional de Lanthimos até o momento. Mas mesmo que não reúna nesta narrativa horrores comparáveis àqueles de "O Sacrifício do Cervo Sagrado", ela é tão insólita e tão criativamente misantropa como todo seu cinema anterior; e tão hábil que, a partir de determinado momento, o espectador deixa de processar suas cenas como alguma coisa entre o burlesco, o picaresco e o excêntrico (é uma comedia, sem duvida) e passa a experimentar em carne viva toda a tragédia que ela contém.
Ainda sobre a misantropia, e fascinante enquanto exposição de patologias, "A Favorita" deixa em segundo plano o contexto histórico (de resto um imbróglio parlamentar envolvendo guerras com França e Espanha, intrigas politicas e teorias conspiratórias) para dedicar-se ao melodrama de interiores e aos jogos pessoais entre a rainha e suas duas favoritas. Essa maliciosa engenharia envolvendo a voragem palaciana pela disputa das mais diversas formas de poder, político, doméstico, pessoal, carnal...
Uma radiografia deformada do arsenal do armamento feminino e suas sutis técnicas de manejo em busca da sobrevivência em um ambiente opressivamente masculino, aliada a uma brilhante e astuta estratégia de bajulação e uma sugestiva manipulação dentro dos limites da corte de uma soberana profundamente infeliz e desequilibrada, há muito mergulhada em um ataque de nervos como aperitivo para o banquete da depressão e da demência. Isto e nada mais, o que de fato interessa a Lanthimos, quase tudo captado por lentes grande angulares banhadas em extravagante iluminação natural e artificial, (parece que o grego quer reescrever as influências que recebeu de Kubrick) instrumentação visual transformadora de uma realidade aparentemente normal.
"A Favorita" poderia ser resumida como um jogo de tronos realmente efetivo e de fato atemporal, como uma absorvente e nada evidente exploração da busca do amor, um rígido estudo sobre como certos anseios primitivos são destruídos por uma estrutura social viciada pela corrupção. Ela, sempre ela, a corrupção.


