Uma fantástica viagem ao país dos mortos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de abril de 1999
Jackeline Seglin 
As sandálias do tempo. Este é o significado de Las Abarcas Del Tiempo, espetáculo que o grupo boliviano Teatro de Los Andes apresenta hoje, pela primeira vez no Brasil, na Mostra Nacional do Filo. A partir das 21 horas, seis atores sobem ao palco do Cine-Teatro Ouro Verde para fazer uma viagem ao país dos mortos.
O diretor César Brie diz que o texto - escrito por ele - conta a história de um jovem camponês que se casa, logo depois fica doente e morre. No aniversário de sua morte, um amigo vai visitá-lo na terra dos mortos. Eles se encontram e, juntos, percorrem o lugar, que pode ser interpretado como a terra da memória, da história da Bolívia, relata.
Nesta viagem, os dois encontram personagens históricos ou fictícios que formam um paradigma da realidade boliviana. O primeiro etnólogo boliviano, Juan Joselillo, que morreu esquecido e na miséria; Thomaz Katari, um índio que foi assassinado; um padre - crítico de arte e sacerdote, também assassinado por paramilitares em 1980; duas misses, mortas em acidente de carro, e um pregador que vende sua mercadoria espiritual aos mortos, acreditando estarem eles vivos. Quem guia o público nesta viagem é um estranho narrador: a morte. A idéia era construir um mapa espiritual e histórico da Bolívia de hoje, observa Brie.
Cada encontro é uma metáfora e uma porta aberta a novas visões. Segundo o diretor, no mundo andino a terra dos mortos não é como o inferno. A relação é diferente. As pessoas falam com os mortos e acreditam na volta deles. Não acham que essas pessoas estejam mortas, e sim em algum outro lugar. É para falar dos vivos que vamos ao mundo dos mortos; e para falar do presente que vamos ao passado, conclui.
O idioma castelhano não deve ser uma barreira para o público brasileiro. Pelos menos é no que acredita Brie. É um espetáculo que, além de palavras, tem muita imagem e música. O problema do idioma é tentar compreender antes de perceber. Se fizer o caminho inverso, ficará mais fácil, explica.
Criado em 1991, o Teatro de Los Andes é um grupo profissional que vive numa comunidade de trabalho. Eles moram numa grande casa-teatro no povoado de Yotala, onde diariamente ensaiam (no mínimo oito horas), se apresentam e, ao mesmo tempo, conseguem guardar um pouco da sua privacidade.


