No mundo de fantasia das novelas da tevê, boa parte das delícias que aparecem nas cenas de festa e café da manhã é real. Comida exerce tanto fascínio que tramas como ‘‘Chocolate com Pimenta’’ e ‘‘Sete Pecados’’, da Globo, além de ‘‘Água na Boca’’, da Band, dedicaram núcleos inteiros ao tema. E, no meio de gravações que duram um dia todo, quitutes e petiscos encantam também os atores, que não raras vezes perdem a compostura quando se deparam com uma mesa farta. ‘‘O mais complicado é quando há cena de festa. Sempre fazemos salgadinhos e docinhos em quantidade maior do que a necessária porque sabemos que eles vão comer antes da cena’’, conta a assistente de produção de arte de ‘‘Ciranda de Pedra’’ Ana Helena Saicali.
  As novelas das seis, aliás, por se passarem em fazendas e cidades interioranas onde cozinha é um cenário corriqueiro, costumam ser as mais tentadoras. Mas nem todos podem sucumbir à tentação. A atriz Rosa Marya Colin, por exemplo, que vive Aurora em ‘‘Ciranda de Pedra’’, tem de se controlar por questões de saúde. ‘‘Sou diabética e desde que a novela começou só pude comer um bolinho de chuva’’, lamenta a atriz. Mas ela já teve de fazer sacrifício ainda maior. Porque foi a Tia Anastácia na última temporada do ‘‘Sítio do Pica-Pau Amarelo’’ e não pode comer uma única broa sequer. ‘‘Foi uma tortura’’, lembra Rosa Marya.
  Para alguns, no entanto, integrar o elenco do ‘‘Sítio’’ foi um deleite gastronômico. E um pesadelo na hora de subir na balança. Foi o caso de Solange Couto, que fez a Cuca na história. ‘‘Engordei seis quilos enquanto fiz o Sítio porque era impossível resistir’’, revela a atriz. Segundo ela, os bolinhos e doces em compota preparados por Tia Anastácia eram muito mais apetitosos do que os famosos pastéis da dona Jura, personagem que Solange interpretou em ‘‘O Clone’’. ‘‘Os pastéis chegavam às seis da manhã na emissora e só gravávamos no fim do dia. Só eram quentinhos quando tinha convidado na cena. Não comi nenhum’’, destaca a atriz. Da mesma novela, no entanto, ela se lembra de um fato engraçado envolvendo cena de festa. ‘‘O Raul Gazolla colocou um doce na boca e descobriu que era isopor coberto com gesso. Depois disse para vários figurantes provarem pois estava uma delícia. Foi de rolar de rir’’, entrega Solange.
  Alimentos cenográficos geralmente são usados quando não há movimentação de atores em cena, como em uma vitrine de padaria, ou quando são necessárias quantidades exageradas de determinado produto. Caso de ‘‘Chocolate com Pimenta’’, em que cinco quilos de chocolate belga eram comprados de 15 em 15 dias. Geralmente, só o que ficava em primeiro plano na cena era real. Em determinado cenário, cerca de 15 mil unidades de chocolate eram usadas. ‘‘Tanto que passei a novela inteira sem comer chocolate. Mas a atriz Laura Cardoso todo dia pedia um bombom no final das gravações’’, revela Isabela Sá, que foi produtora de arte da novela.
  Mas quem teve problemas com chocolate e em outra novela foi Fernanda Souza. A atriz interpretou a comilona Carola, em ‘‘O Profeta’’. Como estava propositalmente gordinha, adorava comer tudo depois de uma gravação. Mas, no início da trama, teve de fazer um grande sacrifício e enfrentou uma situação constrangedora porque precisava comer chocolates em cena e não gostava. ‘‘Eu cuspia o que podia. Até que descobri que era suíço, trazido especialmente para mim. Pedi desculpas à produtora e disse que podia comprar um mais baratinho’’, recorda Fernanda.
  Em ‘‘Água da Boca’’, da Band, a chef de cozinha Sinara Diolf prepara de 25 a 40 pratos diariamente para uma gravação. ‘‘Fazemos carne de cordeiro, salmão e o elenco come no final dos trabalhos. Em compensação, no início da novela, alguns atores não sabiam nem segurar uma faca’’, entrega Sinara, também responsável por treiná-los para as cenas. A atriz Rosane Mulholland, que vive a chef de cozinha Danielle na história, rebate. ‘‘Nunca fui muito ligada à cozinha. Sou é boa de garfo’’, diz.

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