ReproduçãoJulia Mann: infância marcante em Paraty e vida melancólica na AlemanhaPoucos sabem, mas o escritor alemão Thomas Mann (1875 - 1955) autor de clássicos como ‘‘A Montanha Mágica’’, ‘‘Doutor Fausto’’ e ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1929, possuía sangue brasileiro nas veias. Sua mãe, Julia da Silva Bruhns (depois de casada passaria a usar o nome Julia Mann) nasceu em Paraty, Rio de Janeiro.
A história de Julia é melancólica. Nasceu em agosto de 1851, durante uma viagem entre Angra dos Reis e Paraty, cidade onde seus pais tinham uma fazenda de cana-de-açúcar e café. Sua mãe Maria Senhoria da Silva, nascida em Angra dos Reis, era descendente de portugueses. Seu pai, Johann Ludwig Hermann Bruhns, imigrante alemão em busca das riquezas dos trópicos.
Apelidada de Dodô, viveu banhada pelo sol e pelo mar de Paraty até o dia em que sua mãe morreu em trabalho de parto. Desolado com o falecimento da esposa, Johann Bruhns deixou o Brasil com destino à Alemanha levando seus três filhos, entre eles Julia com sete anos de idade em companhia da babá negra Ana. O escritor João Silvério Trevisan partiu desta negra Ana para escrever seu premiado romance histórico ‘‘Ana em Veneza’’ (1993) utilizando três personagens reais, a própria mucama Ana, Julia Mann e o compositor cearence Alberto Nepomuceno.
A mudança de Paraty para a cinzenta cidade alemã de Lubeck deixou profundas marcas em Julia. Nunca mais ela colocaria os pés no Brasil. Derramou lágrimas por anos, por década, de saudade dos dias ensolarados.
Com uma beleza sedutora, casou-se com o futuro senador Thomas Johann Heinrich Mann aos 18 anos de idade. Teve cinco filhos, os escritores Thomas e Heinrich, Carla, Julia e Viktor. As duas filhas, Carla e Julia, acabariam suicidando-se. O primogênito, Thomas Mann, segundo consta, desprezou a origem brasileira da mãe. Deixou escrito o seguinte comentário: ‘‘O Rio de Janeiro, terra de minha mãe, certamente é maravilhoso, mas não preciso tê-lo visto’’.
Julia Mann chegou a escrever suas memórias de infância, ‘‘Aus Dodos Kindheit’’ (Da Infância de Dodô), publicadas em 1958, depois de 35 anos de sua morte. Ela escreveu principalmente sobre sua vida em Paraty e a adaptação em Lubeck. Sobre sua permanência em solo brasileiro, fala com alegria de seu ‘‘pequeno paraíso’’, a Fazenda Boa Vista com seus belos jardins e alegres festas, uma liberdade cercada pela natureza e o amor de sua mãe e a babá Ana.
Duas obras recém-lançadas desenham uma espécie de mapa sobre a família Mann, uma família devotada às artes e ao mesmo tempo conturbada psiquicamente.
HistóriaO livro ‘‘Julia Mann - Uma Vida Entre Duas Culturas’’ lançado pela Editora Salamandra/Instituto Goethe oferece um painel da história desta mulher. Organizado por Dieter Strauss e Maria A. Sene, a obra possui textos de Antonio Skármeta, João Silvério Trevisam, Frido Mann, Cássio Cotrim, além dos organizadores. Cada qual oferecendo enfoque diferente da vida de Julia Mann com destaque aos conflitos e possíveis interações das culturas brasileira e alemã. Amplamente ilustrado com fotografias e documentos, a edição também traz belas ilustrações do século passado realizadas por Jean-Baptiste Debret e Johann Moritz Rugendas, desenhos significativos para a leitura do olhar europeu sobre o Brasil.
Em ‘‘Na Rede dos Magos - Uma Outra História da Família Mann’’, lançado pela Editora Nova Fronteira, a socióloga e psicanalista alemã Marianne Krull apresenta um panorama da família Mann repleto de detalhes polêmicos. Uma família - entre avós, pais e filhos - repleta de adultérios, invejas, suicídios, incestos, assassinatos, brigas, ciúmes, drogas, homossexualidade, enfim, um prato cheio para um romance moderno. A autora oferece uma abordagem histórica e sociológica, dando maior ênfase para um enfoque psicanalítico aos desastres dos Mann.

mockup